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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 29 / 128

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britânica, um número desproporcional de sherpas já morreu no Everest — 53 ao todo. Na verdade, eles respondem por mais de um terço de todas as vítimas do Everest.

Apesar dos perigos, há contudo uma competição acirrada entre os sherpas pelas doze ou dezoito vagas numa expedição típica ao Everest. Os empregos mais procurados são a meia dúzia de vagas para sherpas com experiência em alpinismo, que chegam a ganhar de 1400 a 2500 dólares por dois meses de trabalho perigoso - um salário muito atraente num país entalado na mais profunda miséria, com um rendimento per capita anual de cerca de 160 dólares.

Para atender ao trânsito crescente de alpinistas e caminhantes ocidentais novos alojamentos e casas de chá estão proliferando por toda a região do Khumbu, mas as construções novas são mais evidentes em Namche Bazaar. A caminho de Namche cruzei com inúmeros carregadores subindo das florestas, levando troncos recém-cortados que pesavam mais de cinqüenta quilos - uma tarefa árdua e estafante, pela qual recebiam cerca de três dólares por dia.

Freqüentadores antigos do Khumbu sentem uma grande tristeza diante da explosão turística e das mudanças havidas no que os primeiros alpinistas ocidentais consideravam um paraíso terreno, um Shangri­la. Vales inteiros foram desnudados de suas árvores para atender à crescente demanda por lenha. Os adolescentes nos salões de bilhar muito provavelmente estarão usando jeans e camisetas do Chicago Bulls, em vez dos simpáticos trajes tradicionais. As famílias com certeza passam suas noites em volta de videocassetes, vendo o último filme de Schwarzenegger.

As transformações na cultura do Khumbu com certeza não foram todas para melhor, porém não vi muitos sherpas lamentando as mudanças. A moeda forte levada por trekkers e alpinistas, bem como as verbas fornecidas pelas organizações internacionais de auxílio, sustentadas por esses mesmos esportistas, custearam escolas e clínicas médicas, reduziram a mortalidade infantil, construíram pontes suspensas e levaram energia hidrelétrica até Namche e outras aldeias. Parece-me uma atitude meio arrogante, da parte dos ocidentais, lamentar o fim dos velhos bons tempos, quando a vida no Khumbu era tão mais simples e pitoresca. Grande parte das pessoas que vivem nessa região acidentada não parece desejosa de permanecer isolada do mundo moderno ou do fluxo desordenado do progresso humano. A última coisa que os sher­pas querem é viver preservados como espécimes de um museu antropológico.

Uma pessoa acostumada a andar longas distâncias e pré-aclimatada a altitude poderia percorrer a distância entre a pista de pouso de Lukla e o acampamento-base do Everest em dois Ou três longos dias. Como a maioria de nós acabara de vir do nível do mar, no entanto, Hall teve o cuidado de manter um ritmo mais indolente, que dava ao nosso corpo tempo de se adaptar ao ar cada vez mais rarefeito. Era difícil caminharmos mais que três ou quatro horas num dia. Várias vezes, quando o itinerário de Hall exigia uma aclimatação adicional, não dávamos um passo sequer.

No dia 3 de abril, depois de um dia de aclimatação em Namche, retomamos a trilha rumo ao acampamento-base. Vinte minutos depois, virei uma curva e topei com um panorama espetacular. Abaixo, a 610 metros, rasgando uma fenda profunda na rocha circundante, o Dudh Kosi parecia um fiapo sinuoso de prata reluzindo nas sombras. Acima, a 3048 metros, o imenso espigão do Ama Dablam, iluminado por trás, assomava por cima do vale, como uma aparição. E, mais acima, a 2133 metros, era possível ver a projeção gelada do próprio Everest, quase todo oculto por trás do Nuptse. Como sempre, um chumaço de condensação horizontal estendia-se do topo, como fumaça congelada, traindo a violência dos ventos de monção, o jet stream.

Fiquei ali parado, olhando o pico durante uns trinta minutos talvez, tentando entender como seria estar lá, de pé naquele vértice varrido por ventos fortíssimos. Embora eu já tivesse escalado centenas de montanhas, o Everest era tão diferente de todas as minhas experiências anteriores que minha imaginação não conseguia dar conta do recado. O cume parecia tão gelado, tão alto, tão impossivelmente distante. Senti como se estivesse numa expedição para a Lua. Quando retomei a caminhada, minhas emoções oscilavam entre uma antecipação nervosa e uma sensação de pavor quase incontrolável.

No final daquela tarde cheguei a Tengboche, (10) o maior mosteiro budista do Khumbu. Chhongba, um homem rijo e ponderado, que se unira a nossa expedição como cozinheiro, ofereceu-se para arranjar

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