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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 30 / 128

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um encontro com o rimpoche —"o lama mais importante de todo o Nepal", Chhongba explicou, "um homem muito santo. Ontem mesmo ele encerrou um longo período de meditação silenciosa — ele não falou durante os três últimos meses. Seremos seus primeiros visitantes. Isso é muito auspicioso". Doug, Lou e eu demos, cada um, cem rúpias (cerca de dois dólares) para que ele comprasse katas cerimoniais — echar­pes de seda que seriam ofertadas ao rimpoche. Depois tiramos os sapatos e Chhongba nos levou até um pequeno salão cheio de correntes de ar, atrás do templo principal.

Sentado de pernas cruzadas sobre uma almofada de brocado, envolto por mantos cor de vinho, vi um homem baixo, rotundo, de careca luzidia. Parecia muito velho e cansado. Chhongba curvou-se com toda a reverência, falou rapidamente com ele na língua sherpa e fez sinal para que nos aproximássemos. O rimpoche então nos abençoou a todos, colocando os katas que havíamos comprado em volta de nosso pescoço. Depois sorriu, beatífico, e nos ofereceu chá. "Este kata você deve levar até o cume do Everest", (11) aconselhou-me Chhongba, com voz solene. "Isso agrada a Deus e afasta os perigos."

Incerto sobre qual a melhor maneira de agir diante da presença divina, dessa reencarnação de um antigo e ilustre lama, estava apavorado, com medo de, sem querer, cometer alguma ofensa ou de dar algum fora imperdoável. Enquanto eu tomava goles de chá doce e me contorcia de nervosismo, sua Santidade dirigiu-se a um gabinete adjacente, tirou de lá um grande livro todo decorado e me entregou. Limpei minhas mãos encardidas na calça e abri-o, preocupado. Era um álbum de fotografias. O rimpoche, como percebi logo depois, tinha viajado recentemente pelos Estados Unidos, pela primeira vez na vida, e ali estavam as fotos dessa viagem: sua Santidade em Washington, postado diante do Memorial de Lincoln e do Museu Aeroespacial; sua Santidade na Califórnia, no píer Santa Monica. Sorrindo de orelha a orelha, ele apontou, muito animado, suas duas fotos prediletas de todo o álbum: sua Santidade posando ao lado de Richard Gere e uma outra dele com Steve Seagal.

Os primeiros seis dias de trilha transcorreram em meio a uma deliciosa névoa mental. A rota nos levou por clareiras entre bosques de juní­peros, bétulas anãs, pinheiros azuis, por cascatas ensurdecedoras, jardins de pedra encantadores e riachos borbulhantes. Ao longe, no horizonte, assomavam os picos sobre os quais eu lera a vida toda. Como grande parte de nosso equipamento estivesse sendo transportada pelos iaques e carregadores, minha mochila continha pouca coisa além de uma jaqueta, algumas barras de chocolate e a máquina fotográfica. Leve e sem pressa, enredado no simples prazer de caminhar por uma região exótica, caí numa espécie de transe - mas a euforia nunca durava muito tempo. Mais cedo ou mais tarde eu lembrava para onde estava indo e a sombra do Everest, pairando em minha mente, logo me fazia recobrar a vigilância.

Cada um caminhava em seu próprio ritmo, parando muitas vezes para tomar alguma coisa numa das casas de chá espalhadas ao longo da trilha e para bater um papo com algum passante. Com muita freqüência eu me pegava viajando em companhia de Doug Hansen, o funcionário dos correios, e de Andy Harris, o tranqüilo guia júnior de Rob Hall. Andy — que Rob e todos os seus amigos neozelandeses chamavam de "Harold" — era um rapagão grande, forte, com um físico de atacante de futebol americano e uma beleza tosca, do tipo que se vê em comerciais de cigarro. Durante os invernos do outro lado do mundo, trabalhava na função — por sinal hoje muito requisitada — de guia de helicopter-skiing.(12) No verão, Andy trabalhava para cientistas realizando pesquisas geológicas na Antártida ou escoltava alpinistas até os Alpes do Sul, na Nova Zelândia.

Enquanto subíamos a trilha, Andy falava com grande saudade da mulher com quem vivia, uma médica chamada Fiona McPherson. Quando paramos para descansar numa pedra, ele tirou uma foto da mochila para me mostrar. Era uma mulher loira, alta, de aparência atlética. Andy contou que ele e Fiona estavam construindo uma casa juntos, nas montanhas em volta de Queenstown. Divagando com entusiasmo sobre os prazeres descomplicados de serrar vigas e martelar pregos,

Andy admitiu que, quando Rob lhe oferecera esse trabalho no Everest, ficaria indeciso sobre aceitá-lo ou não: "Foi um negócio muito difícil largar Fi e a casa, na verdade. Tínhamos acabado de colocar o telhado, tende? Mas como é que alguém pode recusar uma chance de escalar Everest? Principalmente quando se tem a oportunidade de trabalhar junto com alguém como Rob Hall".

Embora Andy nunca tivesse estado no Everest antes, não era nenhum novato no Himalaia. Em 1985, escalara um pico dificílimo, chamado Chobutse, de 6683 metros de altura, situado a uns 48 quilômetros a oeste do Everest. E, no outono de 1994, passara quatro meses ajudando Fiona a dirigir a clínica

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