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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 31 / 128

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médica de Pheriche, uma aldeola soturna e varrida por ventos, situada 4267 metros acima do nível do mar, onde passamos as noites de 4 e 5 de abril.

A clínica era financiada por uma fundação chamada Himalayan Rescue Association [Associação de Socorro do Himalaia], cujo objetivo principal era tratar enfermidades relacionadas com altitude (embora também oferecesse tratamento gratuito aos sherpas da região) e educar os trekkers sobre os perigos insidiosos de subir alto ou rápido demais. A clínica foi aberta em 1973, depois que quatro membros de um único grupo de japoneses, que haviam ido ao Himalaia fazer trek­king, sucumbiram à altitude e morreram ali mesmo. Antes da existência da clínica, o mal da montanha matava cerca de um ou dois entre os quinhentos trekkers que passavam por Pheriche. Laura Ziemer — uma advogada cheia de vida que, à época de nossa visita, estava trabalhando naquele estabelecimento de quatro aposentos com o marido médico, Jim Litch, e um outro jovem médico chamado Larry Silver — fez questão de salientar que a alarmante taxa de mortalidade não fora aumentada por acidentes de alpinismo; as vítimas eram "apenas mon­tanhistas comuns que nunca se aventuraram para além das trilhas preestabelecidas".

Agora, graças aos seminários educativos e ao socorro de emergência a cargo dos voluntários da clínica, a taxa de mortalidade fora reduzida a menos de uma morte para cada 30 mil trekkers. Embora ocidentais idealistas como Ziemer, que trabalham na clínica de Pheriche, não recebam nenhuma remuneração e tenham que pagar inclusive todas sua despesas de viagem, trata-se de um posto de prestígio que atrai candidatos altamente qualificados do mundo todo. Caroline Mackenzie, a médica da expedição de Hall, já trabalhara nessa clínica com i Fiona McPherson e Andy, no outono de 1994.

Em 1990, ano em que Hall chegou pela primeira vez ao cume do Everest, a diretora da clínica era uma excelente médica da Nova Zelândia, chamada Jan Arnold. Hall a conheceu quando passava por Pheriche, a caminho das montanhas, e ficou caído por ela no mesmo instante. "Convidei Jan para sair comigo assim que desci do Everest", Hall recordou, em nossa primeira noite na aldeia. "No primeiro encontro propus a ela irmos juntos ao Alasca para escalar o monte McKinley. E ela topou." Casaram-se dois anos depois. Em 1993, Jan chegou ao topo do Everest com Hall; em 1994 e 1995, ela viajou até o acampa­mento-base para trabalhar como médica da expedição. Jan Arnold teria voltado uma vez mais à montanha, nesse ano, se não fosse o fato de estar grávida de sete meses do primeiro filho deles. De modo que a vaga foi ocupada pela dra. Mackenzie.

Após o jantar na quinta-feira, em nossa primeira noite em Pheriche, Laura Ziemer e Jim Litch convidaram Hall, Harris e Helen Wilton, nossa gerente do acampamento-base, para dar um pulo até a clínica, tomar alguma coisa e saber das novidades. No decorrer da noite, a conversa descambou para os riscos inerentes de empreender - e guiar - uma escalada do Everest. Litch lembra-se da discussão com uma nitidez arrepiante: Hall, Harris e Litch estavam de pleno acordo que, cedo ou tarde, um grande desastre envolvendo um número considerável de clientes seria "inevitável". Porém, disse Litch — que havia escalado o Everest a partir do Tibete, na primavera anterior —, "a sensação de Rob é que não seria com ele; estava preocupado tão-somente com 'ter que salvar a vida de uma outra equipe' e com o fato de que, quando a calamidade inevitável acontecesse, 'com certeza ocorreria do lado norte e mais perigoso' do pico" — o lado tibetano.

No dia 6 de abril, algumas horas depois de deixarmos Pheriche, chegamos à parte inferior do glaciar do Khumbu, uma língua de gelo de uns dezenove quilômetros, que desliza do flanco sul do Everest e que serviria como estrada — esperava eu, ansioso — até o cume. A 4870 metros tínhamos deixado para trás os últimos vestígios de verde. Vinte monumentos de pedra postavam-se numa fileira soturna ao longo da crista da morena principal do glaciar, voltados para o vale encoberto ela neblina: monumentos aos alpinistas que morreram no Everest, a maioria deles sherpa. Dali para a frente, nosso mundo seria uma vasta expansão nua e monocromática de rocha e gelo varrido pelo vento. E, apesar de nosso ritmo comedido, eu começava a sentir os efeitos da altitude, que me deixava zonzo e constantemente ofegante.

Nesse trecho, a trilha estava enterrada debaixo de uma camada de neve endurecida em vários lugares. Assim que a neve começou a amolecer, com o sol da tarde, os cascos de nossos iaques perfuraram a crosta congelada e os animais afundaram até a barriga. Os condutores açoitavam os animais, para forçá-los a ir adiante, e ameaçavam voltar. No final do dia chegamos a uma aldeia chamada Lobuje e ali buscamos abrigo do vento num alojamento lotado e de uma imundície espetacular.

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