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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 32 / 128

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Um conjunto de construções baixas e em estado precário, amontoadas bem juntinhas para se protegerem das intempéries na beirada do glaciar do Khumbu, Lobuje era um lugar soturno, repleto de sherpas e alpinistas de uma dezena de expedições diferentes, de trekkers alemães e de manadas de iaques extenuadas — todos a caminho do acampamento-base do Everest, ainda a um dia de distância vale acima. O engarrafamento, Rob explicou, devia-se à tardia e pesada camada de neve congelada no caminho, que até o dia anterior impedira qualquer iaque de chegar ao acampamento-base. A meia dúzia de alojamentos da aldeola estava completamente lotada. Havia barracas aglomeradas lado a lado, nos poucos trechos de terra barrenta que não estavam cobertos de neve. Dezenas de carregadores das etnias rai e tamang, que trabalhavam para diversas expedições e moravam nas regiões menos altas das montanhas — vestidos com trapos e calçados com sandálias de borracha —, foram alojadas em cavernas e debaixo das grandes pedras em volta das encostas.

Os três ou quatro banheiros de pedra da aldeia estavam literalmente transbordando de fezes. As latrinas eram tão abomináveis que a maioria nepaleses e ocidentais, preferia evacuar a céu aberto, sempre que a necessidade surgisse. Havia imensas pilhas fedorentas de fezes humanas por toda parte, era impossível não pisar nelas. O rio de neve derretida que serpenteava pelo centro da aldeia era um esgoto a céu aberto.

O quarto principal do alojamento onde ficamos tinha beliches de madeira para acomodar cerca de trinta pessoas. Encontrei o leito superior de um beliche desocupado, sacudi do colchão imundo as pulgas e piolhos que consegui e estendi meu saco de dormir. Junto à parede mais próxima havia um braseiro de ferro queimando estéreo seco de iaque e que assim nos aquecia. Após o sol se pôr, a temperatura caiu bem abaixo de zero e os carregadores entravam aos magotes, fugindo da noite cruel, para se aquecer ao pé do fogo. Como o estéreo queima mal, mesmo na melhor das situações, e pior ainda na atmosfera carente de oxigênio de nossos 4973 metros de altitude, o alojamento encheu-se de uma fumaça densa, acre, como se o cano de escapamento de um ônibus a diesel estivesse enfiado dentro do quarto. Duas vezes, durante a noite, tossindo descontroladamente, tive de sair em busca de ar fresco. Pela manhã meus olhos ardiam, congestionados, minhas narinas estavam entupidas de fuligem preta e uma tossinha insistente e seca passou a me perseguir até o final da expedição.

Rob havia programado passar apenas um dia de aclimatação em Lobuje, antes de percorrer os últimos dez ou onze quilômetros até o acampamento-base — que nossos sherpas já tinham alcançado alguns dias antes, com o propósito de preparar o local para nossa chegada e começar a estabelecer uma rota nas encostas inferiores até o Everest. Na noite de 7 de abril, no entanto, chegou a Lobuje um homem completamente sem fôlego, de tanto correr com um recado preocupante do acampamento-base: Tenzing, um jovem sherpa contratado por Rob, caíra de uma altura de 45 metros dentro de uma greta - uma grande fenda no glaciar. Quatro outros sherpas haviam içado Tenzing com vida da greta, mas ele estava muito ferido, talvez com o fêmur quebrado. Rob empalideceu e anunciou que ele e Mike Groom iriam de imediato até o acampamento-base, na madrugada seguinte, para coordenar o resgate de Tenzing. "Lamento ter de dizer isso a vocês", ele continuou, "mas precisarão ficar esperando aqui em Lobuje, na companhia de Harold, até resolvermos a situação."

Tenzing, como ficamos sabendo depois, estava fazendo o reconhecimento da rota acima do acampamento 1, escalando um trecho relativamente suave do glaciar do Khumbu, com quatro outros sherpas. Os cinco homens estavam andando em fila indiana, o que é absoluta mente correto, mas não estavam atrelados a uma corda — uma violação seríssima do protocolo do alpinismo. Tenzing estava caminhando bem atrás dos outros quatro, pisando nos mesmos lugares onde eles haviam pisado, quando de repente quebrou uma fina placa de gelo que encobria a greta profunda. Antes que tivesse tempo de gritar, caiu feito uma pedra dentro das entranhas infernais do glaciar.

A 6248 metros, um resgate seguro por helicóptero era impossível - o ar ali é muito ralo para fornecer força de ascensão aos rotores, o que torna muito perigoso pousar, subir ou simplesmente planar —, de modo que ele teria que ser carregado por 914 metros verticais, até o acampamento-base, através da cascata de gelo do Khumbu, um dos terrenos mais escarpados e traiçoeiros de toda a montanha. Levar Tenzing para baixo, com vida, exigiria um esforço maciço.

Rob sempre mostrou uma preocupação especial pelo bem-estar dos sherpas que trabalhavam para ele. Antes que nosso grupo partisse de Katmandu, ele reunira todo mundo e fizera um sermão

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