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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 34 / 128

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Amarraram-no numa escada de alumínio e, mal ou bem, arrastaram e carregaram o companheiro pela cascata de gelo; agora ele estava se recuperando do acidente no acampamento-base. Se o tempo não mudasse, um helicóptero iria até lá ao amanhecer, para levá-lo a um hospital de Katmandu. Com um nítido alívio na voz, Rob nos deu sinal verde para sair de Lobuje pela manhã e seguir rumo ao acampamento-base.

Nós, clientes, também ficamos muito aliviados de saber que Tenzing estava a salvo. E sentimo-nos não menos aliviados de estar saindo de Lobuje. John e Lou contraíram algum tipo de desarranjo intestinal virulento, por causa das péssimas condições sanitárias. Helen, nossa gerente no acampamento-base, estava sofrendo de uma insuportável e constante dor de cabeça provocada pela altitude. E minha tosse piorara consideravelmente após a segunda noite no alojamento enfumaçado.

Naquela que seria nossa terceira noite na aldeia, decidi escapar da fumaceira nociva e me mudar para uma barraca montada logo na frente do alojamento, que Rob e Mike haviam vagado quando partiram para o acampamento-base. Andy resolveu se mudar comigo. Às duas da madrugada fui acordado por alguém sentando-se de repente na barraca, gemendo. "Ei, Harold", perguntei de dentro do saco de dormir, "você está passando bem?"

"Não tenho muita certeza, para dizer a verdade. Alguma coisa que comi no jantar parece que não caiu muito bem." Momentos depois, Andy abriu o zíper da barraca, num frenesi, e mal conseguiu botar a cabeça e o torso para fora antes de vomitar. Depois que o enjôo diminuiu, ele permaneceu vários minutos de quatro, meio para fora da barraca. Depois se levantou, correu alguns metros, arriou a calça e sucumbiu a um sonoro ataque de diarréia. Passou o resto da noite ao relento, descarregando com violência seu conteúdo gastrointestinal.

Pela manhã, Andy estava fraco, desidratado e tremendo feito vara verde. Helen sugeriu que ele ficasse em Lobuje até recobrar as forças, mas Andy não quis nem ouvir falar no assunto. "Não há nada neste mundo que me faça passar mais uma noite neste buraco de merda", declarou com uma careta, a cabeça enterrada nos joelhos. "Eu vou para o acampamento-base hoje, com vocês. Mesmo que seja de quatro."

Por volta das 9h00 já tínhamos arrumado as coisas e estávamos a caminho. Enquanto o restante do grupo seguia a passos rápidos, Helen e eu ficamos para trás, para caminhar ao lado de Andy, que precisava fazer um esforço monumental apenas para pôr um pé na frente do outro. Várias e várias vezes teve que parar, debruçar-se sobre os bastões de esqui durante muitos minutos, até reunir forças para ir adiante.

A rota serpenteou vários quilômetros para baixo e para cima, em meio às rochas instáveis da morena lateral do glaciar do Khumbu, depois despencou no glaciar propriamente dito. Cinzas, cascalho bruto e rochas de granito cobriam boa parte do gelo, mas de vez em quando a trilha cortava um trecho de puro gelo—um meio translúcido e congelado que reluzia como ônix polido. Água de degelo jorrava sem parar, através de inúmeras superfícies e por canais subterrâneos, criando um ronco fantasmagoricamente harmônico que ressoava por todo o glaciar.

No meio da tarde atingimos uma bizarra procissão de pináculos de gelo. Isolados uns dos outros, o maior deles, no trecho conhecido como Phantom Alley, tinha cerca de trinta metros de altura. Esculpidas pelos intensos raios solares, refletindo um tom radioativo de turquesa, as torres erguiam-se como os dentes de um tubarão gigante por sobre as pedras circundantes, até onde a vista alcançava. Helen — que já passara pelo terreno várias vezes — anunciou que estávamos chegando perto de nosso destino.

Alguns quilômetros adiante, o glaciar deu uma guinada acentuada para leste, subimos com dificuldade até a crista de uma longa escarpa e, esparramada à nossa frente, surgiu uma cidade heterogênea feita de cúpulas de náilon. Mais de trezentas barracas, abrigando um número quase igual de alpinistas e sherpas de catorze expedições, salpicavam o gelo pontilhado de pedras. Levamos vinte minutos até achar o local onde nossa expedição acampara, naquele mar de barracas. Enquanto subíamos o último trecho, Rob desceu ao nosso encontro para nos receber. "Bem-vindos ao acampamento-base do Everest", ele disse, sorrindo. O altímetro de meu relógio marcava 5364 metros.

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