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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 35 / 128

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A aldeia improvisada que nos serviria de lar durante as próximas seis semanas fora montada no topo de um anfiteatro natural, circundado por assustadores paredões de montanha. As escarpas acima do acampamento estavam drapejadas de glaciares suspensos, de onde despencavam avalanches fantásticas a qualquer hora do dia ou da noite. A uns quatrocentos metros a leste, espremida entre a parede do Nuptse e o ombro oeste do Everest, a cascata de gelo do Khumbu escorria por uma brecha estreita, num caos de fragmentos congelados. O anfiteatro abria-se para o sudoeste, de modo que era bem ensolarado; nas tardes de céu limpo, quando não havia vento, dava para sentar com tranqüilidade ao ar livre, só de camiseta. Porém, assim que o sol se escondia atrás do cume cônico do Pumori — um pico de 7165 metros imediatamente a oeste do acampamento-base —, a temperatura caía abruptamente. Ao me recolher na barraca, à noite, ia rodeado por uma serenata de estalos e estampidos sonoros, lembrete de que eu estava deitado sobre um rio de gelo movente.

Em contraste absoluto com a aspereza do meio ambiente, havia uma infinidade de pequenos confortos fornecidos pelo acampamento da Adventure Consultants, que servia de lar para catorze ocidentais — os sherpas se referiam a nós coletivamente como "membros" ou "sahibs" — e onze sherpas. Nosso refeitório, uma imensa barraca de lona, fora equipado com uma enorme mesa de pedra, um aparelho de som, uma biblioteca e iluminação fornecida por energia solar; a barraca adjacente, que funcionava como centro de comunicações, abrigava um telefone e um fax operando via satélite. Fora improvisado um chuveiro com um esguicho de borracha e um balde cheio de água que era aquecida pelo pessoal da cozinha. Pão e legumes frescos chegavam a cada dois, três dias, no lombo dos iaques. Continuando uma tradição estabelecida na época do domínio britânico pelas expedições de outrora, todas as manhãs Chhongba e seu ajudante de cozinha iam de barraca em barraca levando canecos fumegantes de chá sherpa até nossos sacos de dormir.

Eu já ouvira muitas histórias sobre como as hordas crescentes de alpinistas haviam transformado o Everest num depósito de lixo. Muita gente culpava as expedições comerciais por essa mudança. Ainda que nos 70 e 80 o acampamento-base fosse mesmo um amontoado de detritos, mais recentemente havia se tornado um lugar bem mais organizado — com certeza o assentamento humano mais limpo que eu tinha vis­to desde Namche Bazaar. Na verdade, as expedições comerciais eram em grande parte responsáveis pela limpeza.

O fato de trazer clientes ao Everest todos os anos tornava os guias interessados nessa questão de uma maneira que os visitantes eventuais não eram. Como parte de sua expedição de 1990, Rob Hall e Gary Ball tomaram a iniciativa de remover cinco toneladas de lixo do acampamen­to-base. Hall e alguns outros guias começaram a trabalhar com os minis­tros de Katmandu para formular diretrizes que incentivassem os alpinis­tas a manter a montanha limpa. Em 1996, além de pagar a taxa de escalada, as expedições tiveram que depositar 4 mil dólares, que só seriam devolvi­dos se um volume preestabelecido de lixo fosse carregado de volta a Nam­che e Katmandu. Até mesmo os barris que coletavam os excrementos de nossas privadas tinham que ser removidos e transportados.

O acampamento-base fervilhava como um formigueiro. Em certo sentido, a expedição da Adventure Consultants servia como sede do governo para todo o acampamento-base, já que ninguém ali na monta­nha gozava de tanto respeito quanto Rob Hall. Sempre que havia um problema — um desentendimento trabalhista com os sherpas, uma emergência médica, uma decisão crítica sobre as estratégias da escala­da —, as pessoas iam até nosso refeitório em busca dos conselhos de Hall. E ele dividia generosamente toda sua sabedoria acumulada com os concorrentes, que afinal estavam competindo por clientes, e sobre­tudo com Scott Fischer.

Em 1995, Fischer guiara com sucesso uma expedição que escalou uma das montanhas de mais de 8 mil metros: (13) o Broad Peak, de 8046 metros de altura, situado nos montes Karakoram, no Paquistão. Fisch­er também tentara o Everest quatro vezes e chegara ao topo uma vez, em 1994, mas não no papel de guia. A primavera de 1996 marcava sua primeira visita à montanha na qualidade de líder de uma expedição comercial; da mesma forma que Hall, Fischer tinha oito clientes no grupo. Seu acampamento, embandeirado com uma imensa faixa pro­mocional do Starbucks Coffee pendurada num bloco de granito do tamanho de uma casa, estava a cinco minutos do nosso, um pouco abai­xo no glaciar.

O variado grupo de homens e mulheres que fazem da escalada dos mais altos picos do mundo uma carreira constitui um clube muito pequeno e fechado. Fischer e Hall eram concorrentes comerciais.

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