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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 36 / 128

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Con­tudo, na qualidade de integrantes eminentes da fraternidade da alta montanha, seus caminhos se cruzavam com freqüência e, num certo nível, consideravam-se amigos. Fischer e Hall conheceram-se nos anos 80, na região montanhosa do Pamir, na Rússia, e depois disso passaram um bom tempo juntos no Everest, em 1989 e 1994. Os dois tinham sérios planos de juntar forças e tentar o Manaslu — um pico dificílimo, de 8162 metros, na região central do Nepal —, logo depois de guiar seus respectivos clientes ao Everest, em 1996.

Os laços entre Fischer e Hall haviam sido cimentados em 1992, quando toparam um com o outro no K2, a segunda maior montanha do mundo. Hall estava tentando chegar ao topo junto com seu companero e parceiro comercial, Gary Ball; Fischer estava subindo com um alpinista de elite, um americano chamado Ed Viesturs. Na volta, durante uma furio­sa tempestade, Fischer, Viesturs e um terceiro norte-americano, Charlie Mace, encontraram Hall se debatendo para cuidar de Ball, praticamente inconsciente, atingido por um ataque fortíssimo do mal da montanha e incapaz de se locomover por si próprio. Fischer, Viesturs e Mace ajudaram a arrastar Ball pelas encostas inferiores assoladas por avalanches, em meio a um tremendo vendaval, salvando-lhe a vida. (Um ano mais tarde Ball morreria da mesma enfermidade, nas encostas do Dhaulagiri.)

Fischer, aos quarenta anos, era um homem robusto, gregário, com um rabo-de-cavalo loiro e uma energia excessiva. Aos catorze anos de idade, em Basking Ridge, New Jersey, ele assistira a um programa de televisão sobre alpinismo e ficara fascinado. No verão seguinte, viajou até o Wyoming e matriculou-se num curso de sobrevivência em territó­rios selvagens na nols, National Outdoor Leadership School [Escola Nacional de Liderança em Alpinismo outdoor]. Assim que se formou no segundo grau, mudou-se definitivamente para o oeste e arrumou um emprego sazonal como instrutor da nols; pôs o alpinismo como centro absoluto de sua existência e nunca mais mudou de idéia.

Quando Fischer tinha dezoito anos, trabalhando na nols, apaixo­nou-se por uma das estudantes do curso, chamada Jean Price. Casaram-se sete anos depois, estabeleceram-se em Seattle e tiveram dois filhos, Andy e Katie Rose (que estavam com nove e cinco anos, respectiva­mente, quando Scott Fischer foi para o Everest, em 1996). Jean Price tirou brevê de piloto e tornou-se capitã da Alaska Airlines — uma car­reira de prestígio e bem paga, que permitia a Fischer escalar em tempo integral. A renda da mulher também permitiu que Fischer abrisse a Mountain Madness em 1984.

Se o nome da empresa de Hall, Adventure Consultants [Consul­tores para Aventuras], espelhava sua forma metódica e meticulosa de encarar o alpinismo, a Mountain Madness [Loucura pela Montanha] era um reflexo ainda mais preciso do estilo de Fischer. Já com vinte e poucos anos adquirira fama por seu jeito audacioso e intrépido de ata­car uma escalada. Durante toda a sua carreira de alpinista, mas sobre­tudo nos primeiros anos, sobreviveu a vários acidentes assustadores que, a bem da verdade, deveriam ter liquidado com ele.

Pelo menos em duas ocasiões, quando escalava rochas—uma vez no Wyoming, outra no Yosemite —, despencou de uma altura de mais de 24 metros. Enquanto trabalhava como instrutor júnior num dos cur­sos da nols, na cadeia Wind River, mergulhou 21 metros, sem corda, até o fundo de uma greta no glaciar Dinwoody. Talvez sua queda mais infame, no entanto, tenha ocorrido quando ainda era novato em alpinis­mo de gelo: apesar da inexperiência, Fischer decidira tentar uma cobi­çada primeira subida por uma dificílima cascata congelada, chamada cachoeira Bridal Veil, no canyon Provo, em Utah. Competindo com dois alpinistas experientes que iam gelo acima, Fischer perdeu o pé e sofreu uma queda de trinta metros.

Para surpresa de todos os que viram o acidente, ele se ergueu e saiu andando com ferimentos relativamente leves. Durante o longo mergu­lho até o chão, no entanto, a ponta tubular de uma ferramenta para esca­lar no gelo perfurou sua canela e saiu pelo outro lado. Quando ele extraiu a ponta oca, tirou também um bom pedaço de tecido, deixando um buraco grande o bastante para se enfiar um lápis em sua perna. Fis­cher não viu nenhum motivo para gastar suas parcas reservas financei­ras tratando um machucado tão pequeno, de modo que continuou esca­lando pelos seis meses seguintes com a ferida aberta e supurada. Quinze anos mais tarde ele me mostrou todo orgulhoso a cicatriz deixada por aquela queda: um par de marcas brilhantes, do tamanho de uma moeda de dez centavos de dólar, apoiando seu tendão de Aquiles.

"Scott ia além de qualquer limitação física", lembra-se Don Peterson, um renomado alpinista americano

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