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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 37 / 128

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que conheceu Fischer logo depois que ele escorregou da Bridal Veil. Peterson acabou se tornando uma espécie de tutor de Fischer, tendo feito algumas escaladas com ele nas duas décadas seguintes. "Sua força de vontade era impressionante. Não importava quanta dor estivesse sentindo — ele não tomava conhe­cimento e continuava subindo. Não era do tipo de dar meia-volta só por­que o pé estava doendo."

"Scott tinha uma ambição tremenda de se tornar um grande alpi­nista, de ser um dos melhores do mundo. Lembro-me de que na sede da nols havia uma espécie de academia bem rudimentar. Scott entrava naquela sala e malhava regularmente com tanto empenho que em geral vomitava. Regularmente. Não existe muita gente desse tipo."

As pessoas eram atraídas pela energia e generosidade de Fischer, por sua ausência de malícia, pelo seu entusiasmo quase infantil. Tosco e emotivo, sem nenhuma inclinação para a introspecção, tinha o tipo de personalidade gregária e magnética que faz amigos instantaneamente, para o resto da vida; centenas de pessoas — inclusive algumas que ele vira uma ou duas vezes — consideravam-no um amigo do peito. Era também um homem de extraordinária beleza, com um físico de halte­rofilista e as feições marcantes de um astro de cinema. Entre os que se sentiam atraídos por ele, não poucos eram do sexo oposto, e Fischer não era imune a atenções.

Homem de apetites fenomenais, Fischer fumava muita maconha (embora não o fizesse quando estava trabalhando) e bebia mais do que o recomendável. Uma saleta nos fundos dos escritórios da Mountain Mad­ness funcionava como uma espécie de clube secreto para Scott: depois de pôr as crianças na cama, ele gostava de se refugiar ali com os amigos, para dividir um baseado e ver slides dos bravos feitos da turma nas alturas.

Durante a década de 80, Fischer concluiu um número impressio­nante de escaladas difíceis, o que lhe valeu um certo renome local, mas ainda assim não era reconhecido pela comunidade dos alpinistas. Ape­sar de todos os esforços, não conseguia um patrocínio comercial lucrativo, como o de seus pares mais famosos. Preocupava-se com a possi­bilidade de que alguns desses grandes alpinistas não o respeitassem.

"O reconhecimento era uma coisa muito importante para Scott", diz Jane Bromet, sua agente publicitária, confidente e parceira freqüen­te em escaladas, que acompanhou a expedição da Mountain Madness até o acampamento-base para enviar boletins via Internet para a Out­side Online. "Ele ansiava por isso. Tinha um lado vulnerável que a maioria das pessoas não enxergava; ele se incomodava, e muito, por não ser mais amplamente respeitado como um alpinista completo. Ele se sentia humilhado e machucado."

Quando Fischer partiu para o Nepal, na primavera de 1996, esta­va começando a conseguir mais reconhecimento do que ele próprio achava que merecia. Boa parte veio na esteira de sua subida ao Everest, em 1994, sem o auxílio de oxigênio suplementar. Batizada como Expe­dição Ambientalista Sagarmatha, a equipe de Fischer removeu 2500 quilos de lixo da montanha — o que foi muito bom para a montanha e acabou sendo uma publicidade ainda melhor para ele. Em janeiro de 1996, Fischer liderou uma escalada do Kilimanjaro, a montanha mais alta da África, que foi muito divulgada, em que arrecadou meio milhão de dólares para a entidade beneficente care. Graças, em grande parte, à limpeza realizada no Everest pela expedição de 1994, e à escalada beneficente na África, quando Fischer partiu para o Everest, em 1996, já havia aparecido várias vezes, e com destaque, nos meios de comuni­cação de Seattle. Sua carreira no alpinismo estava em franca ascensão.

Era inevitável que os jornalistas questionassem Fischer sobre os riscos associados ao tipo de alpinismo que ele praticava e perguntassem como conciliava isso com o fato de ser marido e pai. Fischer respondia que estava se arriscando bem menos do que durante os anos desmiola­dos de juventude - que ele se tornara um alpinista muito mais cuida­doso e conservador. Pouco antes de partir para o Everest, em 1996, ele declarou ao escritor Bruce Barcott, de Seattle: "Acredito cem por cen­to que vou voltar. [...] Minha mulher acredita cem por cento que eu vou voltar. Ela não fica nem um pouco preocupada comigo quando estou trabalhando como guia, porque vou fazer todas as escolhas corretas. Acho que os acidentes acontecem sempre em virtude de um erro huma­no. E é isso que eu quero eliminar. Já tive muitos acidentes escalando, quando era jovem. Você começa a dar uma porção de desculpas, mas no fim das contas é sempre um erro humano".

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