X hits on this document

Word document

o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 38 / 128

496 views

0 shares

1 downloads

0 comments

38 / 128

Em que pesem as garantias de Fischer, sua carreira peripatética de alpinista estava pesando na família. Ele era louco pelos filhos e, quan­do estava em Seattle, costumava ser um pai atencioso, mas as escaladas regulares o afastavam de casa meses a fio. Fischer esteve ausente em sete dos nove aniversários do filho. Na verdade, dizem seus amigos, à época em que ele partiu para o Everest, em 1996, seu casamento estava em crise, situação ainda mais exacerbada por sua dependência finan­ceira da mulher.

Como a maioria dos concorrentes, a Mountain Madness não dava grandes lucros e nunca dera, desde sua abertura: em 1995, Fischer le­vou para casa apenas uns 12 mil dólares. Porém as coisas estavam começando, finalmente, a parecer promissoras, graças à crescente fama de Fischer e aos esforços de sua sócia e gerente, Karen Dickinson, cuja capacidade de organização e sensatez compensavam as bravatas e a despreocupação de Fischer. De olho no sucesso de Rob Hall em suas expedições ao Everest — e nas grandes somas que se podia exigir, em conseqüência disso —, Fischer decidiu que era hora de entrar no mer­cado do Everest. Se conseguisse imitar Hall, logo mais estaria elevan­do a Mountain Madness à categoria de empresa lucrativa.

O dinheiro em si não parecia ter grande importância para Fischer. Ele não ligava a mínima para coisas materiais, no entanto ansiava por res­peito — de sua família, de seus pares, da sociedade em geral — e sabia que em nossa cultura o dinheiro é o principal parâmetro do sucesso.

Poucas semanas depois que Fischer retornou vitorioso do Everest, em 1994, eu o encontrei em Seattle. Não o conhecia muito bem, mas tínhamos alguns amigos em comum e muitas vezes nos cruzávamos em alguma montanha ou numa festa de alpinistas. Nessa ocasião ele quis conversar comigo sobre a expedição ao Everest que estava planejando: eu deveria ir junto, ele insistiu, e escrever um artigo sobre a escalada para a Outside. Quando respondi que seria loucura para alguém como eu, com tão pouca experiência em grandes altitudes, tentar o Everest, ele disse: "Ei, você está valorizando demais essa coisa de experiência. Não é a altitude que importa, é a atitude, meu chapa. Você não vai ter nenhum problema. Já escalou coisas bem difíceis — algumas até mais difíceis que o Everest. Nós já sacamos qual é a do Everest, estamos em sintonia total. Hoje em dia, olhe só, a gente já construiu uma trilha de tijolos amarelos até o topo".

Scott Fischer despertou meu interesse — talvez mais do que ele imaginava — e não deu folga. Falava do Everest toda vez que me encontrava e infernizou a vida de Brad Wetzler, um dos editores da Outside, com essa idéia. Lá por janeiro de 1996, em grande medida graças ao lobby cerrado de Fischer, a revista se comprometeu de fato a me enviar para o Everest — provavelmente, conforme Wetzler sugerira, como integrante da expedição de Fischer. Na cabeça de Scott, o negó­cio já estava fechado.

Um mês antes da data programada para a partida, no entanto, rece­bi um telefonema de Wetzler dizendo que tinha havido uma mudança de planos. Rob Hall fizera à revista uma proposta muito melhor: que eu me juntasse à expedição da Adventure Consultants em vez de à de Fis­cher. Eu conhecia Fischer, gostava dele, e naquele tempo não sabia grande coisa a respeito de Hall, de modo que de início relutei. Porém, depois que um companheiro de alpinismo em quem eu tinha plena con­fiança me confirmou a reputação impecável de Hall, concordei com entusiasmo em ir ao Everest com a Adventure Consultants.

Uma tarde, no acampamento 1, perguntei a Hall por que motivo ele ficara tão interessado em me colocar em seu grupo. Muito honesta­mente ele explicou que não era em mim que estava interessado de fato, nem mesmo na publicidade que certamente o artigo iria gerar. O que lhe interessava, na verdade, era a profusão de anúncios gratuitos que iria colocar na Outside, com essa permuta.

Hall contou-me que, segundo os termos do acordo, ele aceitara receber apenas 10 mil dólares em dinheiro, do total que costumava cobrar; o restante seria pago em sistema de permuta e ele teria acesso ao dispendioso espaço publicitário da revista, dirigida a um mercado classe A de pessoas aventureiras e fisicamente ativas — as mesmas que sua empresa atendia. E, mais importante ainda, disse Hall: "É um públi­co americano. É provável que oitenta ou noventa por cento do mercado potencial para expedições guiadas ao Everest e aos outros dos Sete Picos estejam nos Estados Unidos. Depois desta temporada, quando meu colega Scott tiver se estabelecido como guia, ele vai ter uma imensa vantagem sobre a Adventure Consultants simplesmente pelo fato de estar nos Estados Unidos. Para competir com

Document info
Document views496
Page views624
Page last viewedMon Dec 05 14:42:57 UTC 2016
Pages128
Paragraphs1519
Words87495

Comments