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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 39 / 128

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ele teremos de aumentar, e muito, nossa publicidade lá".

Em janeiro, quando Fischer descobriu que Hall havia conseguido me levar em sua equipe, ficou apoplético. Ligou-me do Colorado, furio­so, e avisou que não ia deixar que Hall vencesse a parada. (Assim como Hall, Fischer não tentou esconder o fato de que não era em mim que esta­va interessado, e sim na publicidade e nos anúncios.) No fim, entretan­to, não se dispôs a cobrir a oferta que Hall fizera à revista.

Quando cheguei ao acampamento-base como integrante do grupo da Adventure Consultants e não da Mountain Madness, Scott Fischer não parecia ter guardado nenhum rancor. Assim que desci até seu acam­pamento para visitá-lo, ele me serviu um caneco de café, pôs o braço em volta de meu ombro e pareceu realmente feliz de me ver.

Apesar das várias benesses da civilização disponíveis no acampa­mento-base, não havia como esquecer que estávamos quase 5 mil me­tros acima do nível do mar. Só de andar até o refeitório eu ficava ofegan­te por vários minutos. Se eu sentasse muito rápido, minha cabeça rodava e eu sentia vertigem. A tosse rascante, que começara em Lobu­je, vinha lá do fundo e piorava a cada dia. Dormir era dificílimo, um sin­toma comum do mal da montanha, em menor grau. Quase todas as noi­tes eu acordava umas três ou quatro vezes, ofegante, sentindo-me como se estivesse sufocando. Cortes e arranhões recusavam-se a sarar. Meu apetite sumiu e meu sistema digestivo, que exigia oxigênio abundante para metabolizar a comida, não estava tirando muito partido do que eu me forçava a engolir; o que meu corpo fez foi começar a consumir a si próprio para se sustentar. Braços e pernas foram aos poucos murchan­do e logo mais virariam uns palitos.

Alguns companheiros estavam se dando ainda pior que eu naque­le ambiente de pouco ar e pouca higiene. Andy, Mike, Caroline, Lou, Stuart e John sofreram ataques de desarranjo gastrintestinal que os mantinham numa corrida constante até as latrinas. Helen e Doug esta­vam sofrendo de dores de cabeça tremendas. Nas palavras de Doug: "É como se alguém estivesse enterrando um prego entre meus olhos".

Essa era a segunda vez que Doug acompanhava Hall ao Everest. No ano anterior, Rob obrigara Doug e três outros clientes a descerem a meros cem metros do topo, só porque estava ficando tarde e a crista do cume estava enterrada sob um manto de neve profunda e instável. "O cume parecia tãããão perto", Doug relembrou, com uma risada pesaro­sa. "Pode acreditar, desde então não houve um dia sequer em que eu não tenha pensado no assunto." Porém Hall o convencera a voltar, sentira pena por Doug Hansen não ter conseguido chegar ao topo, e como cha­mariz reduziu significativamente o preço que cobrava.

Entre meus companheiros pagantes, Doug era o único que já esca­lara várias montanhas sem o auxílio de um guia profissional; embora não fosse um alpinista de elite, seus quinze anos de experiência o tor­navam perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo nas alturas. Se alguém de nossa expedição ia conseguir chegar ao topo, eu presumia que esse alguém fosse Doug: ele era forte, estava motivado e já chega­ra muito perto do cume do Everest.

A menos de dois meses de seu 47º aniversário, divorciado havia dezessete anos, Doug confidenciou-me que já estivera envolvido com uma série de mulheres e que todas elas acabavam indo embora porque se cansavam de competir com as montanhas. Poucas semanas antes de partir para o Everest, em 1996, Doug conhecera uma nova mulher, durante uma visita a um amigo, em Tucson, e os dois se apaixonaram. Por uns tempos trocaram enxurradas de faxes, depois passaram-se vários dias sem que Doug tivesse notícias dela. "Acho que ela caiu em si e me descartou", ele disse, suspirando, de cara abatida. "E olhe que ela era muito legal. Eu estava achando que dessa vez podia ser para valer." Algumas horas depois, naquela mesma tarde, ele se aproximou de minha barraca acenando com um novo fax. "Karen Marie diz que está se mudando para a região de Seattle!", contou, afobado e felicíssimo. "Uau! Isso pode ser sério. É melhor eu chegar ao cume e tirar o Everest do sangue antes que ela mude de idéia."

Além de se corresponder com a nova mulher de sua vida, Doug passava horas no acampamento-base escrevendo inúmeros cartões-postais para os alunos da escola de primeiro grau Sunrise, um estabelecimento público em Kent, Washington, que vendera camisetas para ajudá-lo a custear a

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