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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 40 / 128

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escalada. Ele me mostrou vários dos cartões: "Algumas pessoas têm grandes sonhos, outras têm sonhos pequenos", ele escreveu para uma menina chamada Vanessa. "Seja qual for seu sonho, o mais importante é nunca parar de sonhar."

Doug passava ainda mais tempo escrevendo faxes para seus dois filhos adultos - Angie, 19, e Jaime, 27 anos —, a quem ele criara sozi­nho. Ele estava na barraca ao lado da minha e, toda vez que chegava um fax de Angie, lia para mim, sorrindo de orelha a orelha. "Puxa", decla­rava, "como é que um cara assim perdido feito eu pode ter criado uma garota tão fantástica?"

De minha parte, escrevi poucos postais e faxes. Em vez disso pas­sava a maior parte do tempo no acampamento-base, pensando em como me sairia em alta montanha, sobretudo na chamada zona da morte, aci­ma dos 7600 metros. Eu tinha, em minha bagagem de alpinista, muito mais horas de escaladas técnicas em rocha e gelo que a maioria dos clientes e de muitos guias também. Só que experiência técnica em alpi­nismo vale muito pouco no Everest, e minha experiência em grandes altitudes era muito menor do que a de quase todos os presentes. De fato, ali no acampamento-base — apenas o dedão do Everest — eu já estava a uma altitude muito maior do que jamais estivera em toda minha vida.

Isso não parecia preocupar Hall. Depois de sete expedições ao Everest, explicou ele, já havia aprimorado ao máximo um plano eficaz de aclimatação que nos permitiria uma adaptação gradativa à escassez de oxigênio na atmosfera. (No acampamento-base havia mais ou menos metade do oxigênio que há no nível do mar; no cume, apenas um terço disso.) Quando se depara com um aumento de altitude, o corpo humano se ajusta de várias maneiras, desde um aumento no ritmo da respiração, mudança do ph do sangue, até um aumento radical no número de glóbulos vermelhos que levam o oxigênio pelo corpo — uma conversão que leva semanas para se completar.

Hall, porém, insistia que, acima do acampamento-base, após três viagens, subindo uns seiscentos metros de cada vez, nosso organismo estaria adaptado o suficiente para permitir uma transição segura até o cume de 8848 metros. "Já funcionou 39 vezes até agora, companhei­ro", Hall me garantiu com um sorriso de esguelha quando lhe confes­sei minhas dúvidas. "E alguns dos caras que subiram comigo eram quase tão patéticos quanto você."

6. Acampamento-base do Everest

12 de abril de 1996

5300 m

Quanto mais improvável a situação e maior o esforço exigido [do alpinista], tanto mais doce é o sangue que nos flui depois, libe­rando toda a tensão. A perspectiva do perigo serve apenas para aguçar o controle e a atenção. E talvez seja esse o motivo racio­nal de todos os esportes de risco: você eleva, deliberadamente, o grau de esforço e concentração, com o objetivo, digamos assim, de limpar a mente das trivialidades. Trata-se de um modelo da vida em pequena escala, mas com uma diferença fundamental: ao contrário da vida rotineira, na qual em geral é possível corri­gir os erros e chegar a algum tipo de acordo que satisfaça todas as partes, nossas ações, mesmo que por momentos brevíssimos, têm conseqüências seríssimas.

A. Alvarez

The savage god: a study of suicide

Escalar o Everest é um processo longo e aborrecido, mais pareci­do com um projeto gigantesco de engenharia do que com o tipo de alpi­nismo que eu praticara até então. Incluindo-se os sherpas, havia 26 pes­soas na equipe de Hall; não era uma tarefa das mais fáceis manter todo mundo alimentado, abrigado e em boas condições de saúde a 5364 metros de altitude, a 160 quilômetros da estrada mais próxima. Hall, no entanto, era um intendente de primeiríssima ordem e sentia prazer com os desafios. No acampamento-base ele se debruçava sobre resmas de instruções impressas por computador detalhando as minúcias logísticas: cardápios, peças sobressalentes, ferramentas, remédios, equipamento de comunicação, transporte de carga, disponibilidade de iaques e por aí afora. Engenheiro nato, Rob adorava infra-estrutura, objetos eletrônicos e aparelhinhos de todos os tipos; passava todo o tempo livre mexendo no sistema de captação de energia solar ou então lendo os números atrasados da revista Popular Science.

Na tradição de George Leigh Mallory e de muitos outros que subi­ram o Everest, a estratégia de Hall era sitiar a montanha. Os sherpas iriam levantar, aos poucos, uma série de quatro acampamentos

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