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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 41 / 128

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acima do acam­pamento-base — cada um deles cerca de seiscentos metros mais alto que o outro -, transportando, de acampamento em acampamento, imensos caixotes de comida, combustível para cozinhar e oxigênio, até que todo o material necessário estivesse devidamente armazenado 7924 metros aci­ma, no colo sul. Se tudo corresse segundo o grande plano de Hall, nosso ataque ao cume seria lançado do acampamento mais alto - acampamen­to 4 — dali a um mês.

Mesmo que nenhum de nós, clientes pagantes, tivesse que partici­par do transporte de carga (14) antes do ataque ao cume, teríamos que fa­zer diversas incursões acima do acampamento-base para nos aclima­tarmos. Rob anunciou que a primeira dessas excursões de aclimatação seria no dia 13 de abril — uma viagem de ida e volta, durante o dia todo, até o acampamento 1, empoleirado no cimo mais alto da cascata de gelo do Khumbu, a uns oitocentos metros verticais acima.

Passamos a tarde do dia 12 de abril, meu 42º aniversário, prepa­rando nossos equipamentos de alpinismo. O acampamento lembrava um pátio de liquidação de objetos dispendiosos, com todas as nossas coisas espalhadas entre as pedras, para que pudéssemos escolher as roupas, ajustar as cadeirinhas, o equipamento de segurança e também encaixar os grampões na bota (um grampão é uma grade de pontas de aço de cinco centímetros, que se ajusta nas solas da bota para se ter firmeza no gelo). Fiquei surpreso e preocupado ao ver Beck, Stuart e Lou desempacotando botas de alpinismo novas em folha, que, como eles próprios admitiram, mal tinham sido usadas. Fiquei me perguntando se eles por acaso sabiam o risco que estavam correndo ao subir o Everest com calçados ainda não amaciados: duas décadas antes eu participara de uma expedição com botas novas e aprendera, do modo mais penoso, que botas de alpinismo duras e rígidas podem causar esfoladuras e machucados debilitantes antes de estarem bem amaciadas.

Stuart, o jovem cardiologista canadense, descobriu que seus grampões não serviam para as novas botas. Por sorte, depois de empre­gar toda a sua imensa caixa de ferramentas e uma dose razoável de enge­nho, Rob conseguiu improvisar uma alça e os grampões funcionaram.

Enquanto eu arrumava a mochila para o dia seguinte, fiquei saben­do que, entre as demandas familiares e as carreiras de sucesso, poucos de meus companheiros pagantes tinham tido oportunidade de praticar alpinismo mais que uma ou duas vezes no ano anterior. Embora todos parecessem estar em excelente forma física, as circunstâncias forçaram quase todos a fazer o grosso do treinamento em aparelhos de ginástica e esteiras, não em picos de verdade. Isso me deixou preocupado. O condicionamento físico é um componente crucial do alpinismo, mas há muitos outros elementos igualmente importantes e nenhum deles pode ser praticado numa academia.

Mas talvez eu esteja apenas sendo esnobe, censurei a mim mesmo. De qualquer maneira, era óbvio que todos os meus companheiros esta­vam tão excitados quanto eu diante da perspectiva de poder enfiar os grampões numa montanha genuína quando chegasse o dia seguinte.

Nossa rota até o cume seguiria o glaciar do Khumbu até a metade inferior da montanha. Do bergschrund, (15) a 7010 metros, que marca sua porção superior, esse grande rio de gelo descia por quatro quilômetros, num vale relativamente suave chamado Circo Oeste. Ao avançar pouco a pouco sobre saliências e inclinações sob o estrato subjacente do Cir­co, o glaciar ia se fragmentando em incontáveis fendas — gretas. Algu­mas dessas gretas eram estreitas o bastante para se atravessar com facilidade; outras tinham até 24 metros de largura e algumas centenas de metros de profundidade, com uns oitocentos metros de ponta a ponta. As grandes em geral constituíam um obstáculo e tanto à nossa subida e, quando escondidas sob uma crosta de neve, podiam representar um enorme perigo. Mas os desafios das gretas do Circo Oeste acabaram se mostrando, no decorrer dos anos, bastante previsíveis e contornáveis.

Já a cascata de gelo era uma outra história. Nenhum trecho da rota pelo colo sul era mais temido pelos alpinistas. A cerca de 6090 metros de altitude, onde o glaciar emergia da porção inferior do Circo Oeste, ela se arremessava bruscamente sobre um declive inclinadíssimo. Essa era a infame cascata de gelo do Khumbu, o trecho mais difícil, do pon­to de vista técnico, de toda a rota.

Na cascata de gelo, o movimento do glaciar, segundo as medições, é de noventa centímetros a 1,20 metro por dia. Ao deslizar pelo terreno íngreme e irregular, aos trancos e barrancos, a massa de gelo fragmen­ta-se numa série de imensos blocos instáveis chamados seracs, alguns deles tão grandes

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