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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 42 / 128

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quanto um edifício. Como a rota de ascensão passava embaixo, em volta e entre centenas dessas torres movediças, cada pas­sagem pela cascata de gelo era, literalmente, como uma rodada de role­ta russa: cedo ou tarde algum serac iria despencar sem aviso e a única coisa a fazer era torcer para não estar debaixo dele quando caísse. Des­de 1963, quando um companheiro de Hornbein e Unsoeld chamado Jake Breitenbach foi esmagado por um serac, tornando-se a primeira vítima da cascata de gelo, dezoito outros alpinistas já morreram no local.

No inverno anterior, assim como já fizera em invernos passados, Hall se reunira com os líderes de todas as expedições que planejavam subir o Everest na primavera e, juntos, haviam concordado que uma das equipes seria responsável por abrir e manter uma rota através da cascata de gelo. Por esse trabalho, a equipe escolhida receberia 2 mil dólares de cada uma das outras expedições. Nos últimos anos essa abordagem coo­perativa tem sido recebida com grande, ainda que não universal, aceita­ção, mas nem sempre foi o caso.

A primeira vez em que uma expedição teve a idéia de cobrar das outras para atravessar o gelo foi em 1988, quando uma equipe norte-americana muito rica anunciou que todas as expedições que pretendes­sem seguir a rota que ela havia demarcado na cascata de gelo teriam que desembolsar mais de 2 mil dólares. Algumas das equipes daquele ano, que ainda não haviam compreendido que o Everest não era mais ape­nas uma montanha e transformara-se também num bem comercial, ficaram indignadas. E o maior escarcéu veio da parte de Rob Hall, que liderava uma equipe neozelandesa pequena e pobre.

Hall lamuriou-se, dizendo que os americanos estavam "violando o espírito das montanhas" e praticando uma vergonhosa forma de extorsão alpina, porém Jim Frush, o insensível advogado que chefiava o grupo americano, continuou impassível. Por fim Hall concordou, rilhando os dentes, em mandar a Frush um cheque e recebeu permissão para passar pela cascata de gelo. (Frush mais tarde relatou que Hall nunca honrou sua promessa.)

Dois anos depois, no entanto, Hall mudou de idéia e enxergou a lógica de tratar a cascata de gelo como um pedágio de estrada. De fato, de 1993 a 1995, ele próprio se prontificou como voluntário para demarcar a rota e arrecadar, para si, os pedágios. Na primavera de 1996, pre­feriu não assumir a responsabilidade pela cascata de gelo, mas não hesitou em pagar ao líder de uma expedição comercial (16) concorrente - um veterano escocês do Everest chamado Mal Duff - a taxa para que ele assumisse a tarefa. Muito antes que tivéssemos chegado ao acam­pamento-base, uma equipe de sherpas contratados por Duff marcara uma trilha em ziguezague através dos seracs, estendendo quase dois quilômetros de corda e instalando sessenta escadas de alumínio sobre as superfícies quebradas do glaciar. As escadas pertenciam a um sher­pa muito empreendedor da aldeia de Gorak Shep, que tirava um belo rendimento alugando-as a cada temporada.

De modo que foi assim que, às 4h45 da manhã de um sábado, 13 de abril, me vi ao pé da lendária cascata de gelo, prendendo nela meus grampões, em meio à gélida penumbra do amanhecer.

Velhos alpinistas experimentados, que durante a vida inteira esca­param da morte por um triz, gostam de aconselhar seus jovens protegi­dos e sempre dizem que permanecer vivo depende muito de ouvir com atenção a sua "voz interior". Não faltam histórias de um ou outro alpi­nista que decidiu permanecer dentro do saco de dormir após detectar alguma vibração etérea pouco auspiciosa, sobrevivendo assim à catás­trofe que liquidaria com todos os outros que não ouviram os presságios.

Eu não duvidava do valor em potencial das dicas do subconscien­te. Enquanto esperava Rob, que iria liderar o caminho, o gelo a meus pés emitiu uma série de estalos sonoros, como pequenas árvores sendo partidas ao meio, e eu estremecia a cada estalido e a cada rugido vindos das profundezas do glaciar movediço. O problema é que essa voz inter­na vivia berrando que eu estava prestes a me esborrachar; ela fazia isso toda vez que eu me abaixava para amarrar o cordão das botas de esca­lar. Portanto fiz o possível e o impossível para ignorar minha imagina­ção histriônica e segui carrancudo atrás de Rob rumo ao sinistro labi­rinto azulado.

Embora nunca tivesse estado numa cascata de gelo tão assustado­ra quanto a do Khumbu, eu já escalara várias outras. Em geral, elas têm passagens verticais ou até mesmo suspensas que exigem um conside­rável grau de conhecimento sobre como usar o piolet e os grampões. Com certeza não faltavam paredões na cascata de gelo do Khumbu, e todos haviam sido equipados com escadas ou

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