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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 43 / 128

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cordas, ou até mesmo ambos, tornando as ferramentas e técnicas convencionais de alpinismo no gelo quase totalmente supérfluas.

Logo mais eu aprenderia que no Everest nem a corda - a quintes­sência dos equipamentos alpinos — seria utilizada da maneira tradicio­nal. O normal é que o alpinista vá amarrado a um ou dois parceiros com um pedaço de corda de 45 metros de comprimento, o que torna cada pessoa diretamente responsável pela vida das demais; ligar-se assim por uma corda é um ato muito sério e íntimo. Na cascata de gelo, porém, a conveniência ditava que cada um de nós subisse sozinho, sem estar fisicamente atrelado a ninguém.

Os sherpas de Mal Duff haviam fixado uma corda estática que ia do sopé da cascata de gelo até o topo. Atrelada à minha cintura havia uma fita de segurança de noventa centímetros de comprimento com um mosquetão na outra ponta, para impedir que a corda se soltasse. Segurança, ali, não significava unir-me a um companheiro de equipe, e sim atrelar a fita de segurança à corda fixa e deslizá-la para cima. Escalando dessa forma, poderíamos subir o mais depressa possível pelos trechos mais perigosos da cascata de gelo, não tendo de confiar nossas vidas a colegas cujas habi­lidades e experiência nos eram desconhecidas. Até o fim da escalada eu não teria oportunidade, uma vez sequer, de me amarrar a outro alpinista.

Se a cascata de gelo requer poucas das técnicas ortodoxas do alpi­nismo, por outro lado exige um outro repertório de habilidades — como, por exemplo, a capacidade de atravessar pé ante pé, com botas de alpinismo e grampões, três escadas vacilantes, unidas uma na outra, servindo de ponte sobre um abismo; era de deixar qualquer um apavo­rado. Houve uma infinidade dessas travessias e eu nunca consegui me acostumar a elas.

Num determinado momento, eu me equilibrava numa dessas esca­das instáveis, no lusco-fusco da pré-alvorada, pisando com delicadeza nos degraus tortos, quando o gelo que prendia a escada dos dois lados começou a tremer como se tivesse havido um terremoto. Logo a seguir veio um rugido explosivo, como se um imenso serac ali nas vizinhanças tivesse desabado. Eu congelei, com o coração na boca, porém a avalan­che de gelo passou cinqüenta metros à esquerda, fora da vista, sem cau­sar nenhum dano. Depois de esperar alguns minutos, para recobrar a compostura, reiniciei um tanto abalado minha travessia até o outro lado da escada.

A movimentação contínua e muitas vezes violenta do glaciar acrescentava um elemento de incerteza a cada travessia. Com o movi­mento do glaciar, as gretas às vezes se comprimem, entortando as esca­das como se fossem palitos de dente; em outras ocasiões, a greta pode se expandir, deixando a escada pendurada no ar, apoiada muito de leve nas margens, sem nenhuma das extremidades fincadas em gelo sólido. O suporte das âncoras, (17) sustentando as escadas e cordas, costumava derreter quando o sol da tarde aquecia o gelo e a neve em volta. Apesar de elas passarem por manutenção todos os dias, havia um perigo real de que qualquer uma das cordas cedesse com o peso do corpo.

Contudo, se a cascata de gelo era cansativa e apavorante, tinha também um encanto surpreendente. A medida que a alvorada foi lim­pando a escuridão do céu, o glaciar estilhaçado revelou-se como uma paisagem tridimensional de fantasmagórica beleza. A temperatura era de - 21° C. Meus grampões mastigavam satisfatoriamente a crosta do glaciar. Seguindo a corda fixa, serpenteei por um labirinto vertical de cristais azuis de estalagmite — contrafortes de pura rocha estriados com o gelo empurrado pelo glaciar, elevando-se como os ombros de um deus malévolo. Absorvido pela paisagem que me rodeava e pela gravi­dade do esforço, embarquei nos prazeres da escalada e durante uma hora ou duas esqueci totalmente o medo.

Com três quartos do caminho até o acampamento 1 percorridos, Hall comentou, numa parada para descanso, que a cascata de gelo esta­va em sua melhor forma: "A rota este ano está desimpedida". Porém, um pouco mais acima, aos 5790 metros de altura, as cordas nos levaram até a base de um gigantesco serac, perigosamente inclinado. Tão gran­de quanto um prédio de doze andares, pendia sobre nossas cabeças com uma inclinação de trinta graus. A rota seguia uma passarela natural que fazia um ângulo abrupto com a torre pendurada: teríamos que subir e dar a volta inteira pelo gigante desequilibrado para escapar de sua ameaçadora tonelagem.

A salvação, conforme eu entendi, dependia da rapidez. Saí esba­forido rumo à relativa segurança

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