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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 44 / 128

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da crista do serac, com toda a rapidez de que era capaz, mas, como ainda não estava aclimatado, meu ritmo mais veloz não era melhor que o de uma lesma. A cada quatro ou cinco passos tinha que parar, apoiar-me na corda e sugar com desespero aque­le ar rarefeito, amargo, ferindo desse modo os pulmões.

Atingi o topo do serac, sem desmaiar, e despenquei sem fôlego nenhum em seu cume plano, o coração às marteladas. Um pouco mais tarde, por volta das 8h30, cheguei ao topo da cascata de gelo propriamente dito, um pouco mais além dos últimos seracs. A segurança do acampamento 1, porém, não chegava a fornecer paz de espírito: eu não conseguia parar de pensar naquela tenebrosa massa inclinada um pouco mais abaixo e no fato de que teria de passar debaixo de seu volume cambaleante pelo menos mais sete vezes, se quisesse chegar ao topo do Everest. Decidi que os alpinistas que denegriam aquela crista cha­mando-a de rota do iaque obviamente nunca tinham passado pela cas­cata de gelo do Khumbu.

Antes de sairmos, Rob explicara que faríamos meia-volta às 10h00 em ponto, mesmo que alguns não tivessem conseguido chegar ao acam­pamento 1, antes que o sol do meio-dia, batendo em cheio na cascata de gelo, tornasse a volta para a base ainda mais instável. Na hora marcada, apenas Rob, Frank Fischbeck, John Taske, Doug Hansen e eu havíamos chegado ao acampamento 1; Yasuko Namba, Stuart Hutchison, Beck Weathers e Lou Kasischke, escoltados pelos guias Mike Groom e Andy Harris, estavam a sessenta metros verticais do acampamento, quando Rob enviou mensagem por rádio mandando todos voltarem.

Pela primeira vez tínhamos nos visto escalando e podíamos ava­liar melhor as forças e fraquezas das pessoas de quem dependeríamos nas próximas semanas. Doug e John — 56 anos, o mais velho da equi­pe — me pareceram bem sólidos. Porém Frank, o cavalheiresco e poli­do dono de uma editora em Hong Kong, foi quem mais se destacou: demonstrando a sabedoria que adquirira em expedições anteriores ao Everest, começou devagar, porém manteve um ritmo constante; na altura em que estávamos, no topo da cascata de gelo, ele já havia passa­do com calma por quase todo mundo e nem parecia ofegante.

Num contraste marcante, Stuart — o mais jovem e aparentemente mais vigoroso cliente de toda a equipe — saíra a toda da base, na frente do grupo inteiro. Mas logo ficara exausto e, ao chegar ao topo da casca­ta de gelo, estava numa agonia visível, no fim da fila. Lou, prejudicado por uma distensão muscular ocorrida na primeira manhã da caminhada até o acampamento-base, prosseguiu de modo lento mas competente. Beck, e sobretudo Yasuko, por outro lado, foram bastante irregulares.

Várias vezes Beck e Yasuko deram a impressão de estar à beira de cair de uma das escadas e despencar greta abaixo. Yasuko parecia não ter a mínima idéia de como usar grampões. (18) Andy, que se revelou um ótimo e pacientíssimo professor - e que na qualidade de guia júnior fora escalado para acompanhar os clientes mais lentos, no fim da fila —, passou a manhã inteira treinando Yasuko nas técnicas básicas do alpi­nismo no gelo.

Fossem quais fossem as várias deficiências de nosso grupo, no topo da cascata de gelo Rob anunciou que estava muito satisfeito com o desempenho de todos. "Para uma primeira expedição acima do acam­pamento-base, todos vocês foram extraordinariamente bem", ele declarou, como um pai orgulhoso. "Acho que temos uma equipe bem forte este ano."

Levamos menos de uma hora para descer de volta ao acampamen­to-base. Quando tirei os grampões para percorrer os últimos cem metros até as barracas, parecia que o sol estava abrindo um buraco no meu crânio. A dor de cabeça chegou com força total alguns minutos depois, enquanto eu conversava com Helen e Chhongba no refeitório. Nunca senti nada parecido: uma dor esmagadora entre as têmporas — tão forte que fui tomado por tremores e ataques de ânsia de vômito que tornavam impossível falar qualquer frase coerente. Com medo de que tivesse sofrido algum tipo de ataque, saí cambaleando no meio da con­versa, entrei dentro do saco de dormir e tampei o rosto com o boné.

A dor de cabeça tinha a intensidade cegante de uma enxaqueca e eu não fazia idéia do que a provocara. Duvidava que fosse devido à altitu­de, porque não me atingiu até eu voltar à base. O mais provável é que fos­se uma reação à feroz radiação ultravioleta que queimara minhas retinas e cozinhara meu cérebro. Independentemente da causa, a agonia era intensa e constante. Durante as cinco

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