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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 45 / 128

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primeiras horas fiquei deitado na barraca, tentando evitar estímulos sensoriais de toda espécie. Se eu abrisse os olhos, ou mesmo movesse o olho de um lado para outro, com as pálpebras cerradas, sentia uma ferroada de dor. Ao entardecer, inca­paz de suportar mais um minuto daquilo, arrastei-me até a barraca de Caroline, a médica da expedição, para pedir-lhe algum conselho.

Ela me deu um analgésico forte e me disse para beber um pouco de água, porém após alguns goles eu regurgitei as pílulas, o líquido e o que sobrara do almoço. "Hum", fez Caroline, observando o vômito esparramado em minhas botas. "Desconfio que vamos ter que tentar outra coisa." Fui instruído a dissolver uma pílula minúscula sob a lín­gua, que impediria que eu vomitasse, e depois a engolir dois comprimi­dos de codeína. Uma hora mais tarde a dor começou a diminuir; quase aos prantos de tanta gratidão, mergulhei no sono.

Eu estava cochilando no saco de dormir, vendo o sol matinal dese­nhar sombras nas paredes de minha barraca, quando Helen gritou: "Jon! Telefone! É a Linda!". Enfiei correndo as sandálias, corri os cinqüenta metros até a barraca de comunicações e agarrei o fone, lutando para recobrar o fôlego.

Todo o aparato de telefone e fax não era muito maior que um com­putador laptop. As chamadas eram caras — cerca de cinco dólares por minuto — e nem sempre se completavam, mas o fato de que minha mulher pudesse discar um número de treze dígitos em Seattle e conver­sar comigo no monte Everest era espantoso para mim. Embora a cha­mada fosse um enorme conforto, a resignação na voz de Linda era inconfundível, mesmo vinda do outro lado do globo. "Estou bem", garantiu-me, "mas gostaria que você estivesse aqui comigo."

Dezoito dias antes ela caíra no choro ao me levar até o avião para o Nepal. "Na volta do aeroporto", ela confessou, "eu não conseguia parar de chorar. Me despedir de você foi uma das coisas mais tristes de minha vida. Acho que eu sabia, em algum nível do inconsciente, que você poderia não voltar, e isso me pareceu um desperdício enorme. Parecia uma besteira tão grande, tão sem sentido."

Estávamos casados havia quinze anos e meio. Uma semana depois de termos conversado pela primeira vez sobre o grande passo, fomos até um juiz de paz e concluímos o assunto. Eu tinha então 26 anos, e decidira havia pouco que iria largar o alpinismo e levar a vida a sério.

Quando conheci Linda, ela também era alpinista — e muito dota­da —, mas abandonou o esporte depois de quebrar um braço, machu­car a coluna e de fazer, na esteira do acidente, uma fria avaliação dos riscos inerentes. Jamais teria passado pela cabeça de Linda me pedir Para largar o alpinismo. Porém, quando declarei que pretendia abandoná-lo, isso reforçou sua decisão de se casar comigo. Só que não perce­bi, na época, o quanto minha alma estava possuída e como esse espor­te dava uma direção à minha vida, sem rumo sob todos os outros aspec­tos. Não consegui antever o vazio que surgiria com sua ausência. Em um ano, eu estava tirando minha corda do armário e voltando para as rochas. Em 1984, quando fui à Suíça escalar uma parede alpina notória por sua periculosidade, conhecida como Eiger Nordwand, Linda e eu estávamos à beira da separação; minhas escaladas eram o coração de nossos problemas.

Após minha fracassada tentativa de subir o Eiger, nosso relacio­namento ficou meio abalado durante dois ou três anos, mas o casamen­to conseguiu, sabe-se lá como, sobreviver a esse período ruim. Linda acabou aceitando minhas escaladas: percebeu que era uma parte cru­cial (ainda que incompreensível) daquilo que eu era. O alpinismo, e isso ela entendeu, era uma expressão essencial de algum aspecto estra­nho e imutável de minha personalidade que eu não conseguiria mudar, assim como não poderia mudar a cor de meus olhos. Aí, no meio dessa delicada reaproximação, a revista Outside confirmou que estaria me mandando ao Everest.

De início, fingi que estaria indo antes como jornalista do que como alpinista — que eu aceitara a oferta porque a comercialização do Eve­rest era um tópico interessante e o dinheiro valeria a pena. Expliquei a Linda e a todos os outros, que expressaram dúvidas sobre minhas qua­lificações para subir o Himalaia, que eu não esperava ir muito alto. "Provavelmente vou subir só um pouco acima do acampamento-base", eu insistia. "Só para ter uma idéia do que vem a ser uma grande alti­tude."

Era tudo conversa fiada, claro. Considerando a duração da viagem e o tempo que seria preciso gastar para preparar-me para ela, eu ga­nharia muito mais dinheiro ficando em casa e pegando outros

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