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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 46 / 128

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trabalhos. Aceitei porque estava tomado pela mística do Everest. Na verda­de, desejava ardentemente escalar a montanha, mais que tudo que eu já quisera na vida. No momento em que concordei em ir para o Nepal, minha intenção era subir até onde minhas pernas e pulmões conseguis­sem me levar.

Quando Linda me levou ao aeroporto, ela já havia percebido, fazia muito tempo, a realidade por trás das desculpas. Ela pressentiu as ver­dadeiras dimensões de meu desejo e assustou-se. "Se você morrer", argumentou com um misto de desespero e raiva, "não é só você que vai pagar o preço. Eu também vou pagar, pelo resto da vida. Você não se incomoda com isso."

"Não vou morrer", respondi. "Não seja melodramática."

7. Acampamento 1

13 de abril de 1996

5943 m

No entanto, existem homens para quem o inatingível tem uma atração toda especial. Em geral não são especialistas: têm ambi­ções e fantasias fortes o bastante para afastar quaisquer dúvidas que homens mais cautelosos porventura pudessem ter. Determi­nação e fé são suas grandes armas. Na melhor das hipóteses, são considerados excêntricos; na pior, são tomados por loucos. [...]

O Everest tem atraído seu quinhão de homens assim. A expe­riência que têm em alpinismo costuma ser nula ou muito escassa com certeza nenhum deles tem o tipo de experiência que torna­ria uma escalada do Everest uma meta razoável. Porém, possuem três coisas em comum: fé em si mesmos, grande determinação e poder de resistência.

Walt Unsworth

Everest

Eu cresci com uma ambição e uma determinação sem as quais teria sido bem mais feliz - Pensava muito e acabei adquirindo aquele olhar distante do sonhador, porque eram sempre as gran­des alturas que me fascinavam e atraíam meu espírito. Eu não ti­nha muita certeza do que poderia conseguir com tenacidade e pouca coisa mais que isso, mas o alvo estava lá no alto e cada revés servia apenas para me deixar ainda mais determinado a ver pelo menos um sonho concretizado.

Earl Denman

Alone to Everest

Nas encostas do Everest, na primavera de 1996, não faltavam sonhadores; as credenciais de muitos que ali estavam para escalar a montanha eram tão frágeis quanto as minhas, ou ainda mais precárias. Na hora de cada um de nós avaliar as próprias capacidades e de com­pará-las com os formidáveis desafios da montanha mais alta do mun­do, metade da população no acampamento-base parecia estar deliran­do. No entanto, isso talvez não devesse ser uma surpresa. O Everest sempre foi um ímã para os meio tantãs, para os amantes da autopromo­ção, para os românticos inveterados e outros com um fraco domínio sobre a realidade.

Em março de 1947, um engenheiro canadense sem nenhum tos­tão, Earl Denman, chegou a Darjeeling e anunciou sua intenção de escalar o Everest, apesar da pouquíssima experiência em alpinismo e de não ter permissão oficial de entrar no Tibete. De alguma forma con­seguiu convencer dois sherpas, Ang Dawa e Tenzing Norgay, a acom­panhá-lo.

Tenzing — o mesmo homem que faria a primeira escalada do Everest com Hillary — emigrara do Nepal para Darjeeling em 1933, aos dezessete anos, na esperança de encontrar colocação, naquele mes­mo ano, numa expedição ao topo do Everest liderada por um eminente alpinista britânico chamado Eric Shipton. O ambicioso rapaz sherpa não foi escolhido naquele ano, mas continuou na Índia e acabou sendo contratado por Shipton para a expedição britânica ao Everest de 1935. Quando concordou em ir com Denman, em 1947, Tenzing já estivera na grande montanha três vezes. Mais tarde, ele admitiu saber, o tempo todo, que os planos de Denman eram loucura, porém também ele se via incapaz de resistir ao chamado do Everest:

Nada daquilo fazia sentido. Em primeiro lugar porque provavelmente não conseguiríamos entrar no Tibete. Segundo, se por acaso conseguís­semos, talvez fôssemos pegos e, como guias, nós também, junto com Denman, estaríamos em sérios apuros. Em terceiro lugar, nunca acredi­tei, em nenhum momento, que um grupo como o nosso conseguisse esca­lar o Everest. Quarto, a tentativa seria altamente perigosa. Quinto, Den­man não tinha dinheiro nem para nos pagar bem nem para garantir uma quantia decente a

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