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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 47 / 128

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nossos dependentes, caso algo nos acontecesse. Mas não consegui dizer não. Algo no fundo do coração dizia-me que eu pre­cisava ir, e o chamado do Everest, para mim, era mais forte que qualquer outra força terrena. Ang Dawa e eu conversamos sobre o assunto por alguns minutos, depois tomamos nossa decisão. "Bom", eu disse a Den­man, "nós vamos tentar."

À medida que a pequena expedição atravessava o Tibete, rumo ao Everest, os dois sherpas foram gostando e respeitando cada vez mais o canadense. Apesar da pouca experiência, admiravam sua coragem e força física. E Denman, justiça seja feita, não relutou um minuto sequer em admitir suas deficiências quando chegaram à encosta da montanha e ele se viu frente a frente com a realidade. Açoitados por uma tremen­da tempestade aos 6700 metros, Denman admitiu a derrota e os três homens deram meia-volta, regressando a salvo para Darjeeling, apenas cinco semanas após a partida.

Maurice Wilson, um inglês melancólico e idealista, não tivera tan­ta sorte, ao tentar uma subida igualmente insensata, treze anos antes de Denman. Motivado por um desejo equivocado de ajudar seus seme­lhantes, Wilson concluíra que escalar o Everest seria a maneira perfei­ta de divulgar sua crença de que a miríade de males que assolavam a humanidade poderia ser curada com uma combinação de jejum e fé nos poderes de Deus. Ele planejara pilotar um pequeno avião até o Tibete, fazer uma aterrissagem forçada nos flancos do Everest e, de lá, prosse­guir rumo ao topo. O fato de não saber absolutamente nada sobre alpi­nismo ou aviação não lhe pareceu um grande empecilho.

Wilson comprou um Gypsy Moth de asas de lona, batizou-o de Ever Wrest e aprendeu os rudimentos de pilotagem. Depois, passou cinco semanas percorrendo as modestas colinas de Snowdonia e da região de Lake District, na Inglaterra, para aprender o que ele achava que precisava saber sobre alpinismo. E então, em maio de 1933, deco­lou em seu minúsculo avião e fez o trajeto para o Everest via Cairo, Teerã e Índia.

Àquela altura, Wilson já havia recebido uma cobertura razoável da imprensa. Ele voou até Purtabpore, Índia; porém, não tendo conse­guido permissão do governo do Nepal para sobrevoar território nepa­lês, vendeu o avião por quinhentas libras e viajou por terra até Darjee­ling, onde recebeu a notícia de que não lhe fora concedida a permissão para entrar no Tibete. Nem isso foi capaz de desanimá-lo: em março de 1934, ele contratou três sherpas, disfarçou-se de monge budista e, desafiando as autoridades do Império Britânico, caminhou sub-repticiamente por quase quinhentos quilômetros através das florestas de Sikkim e do ressequido platô tibetano. Em 14 de abril estava no sopé do Everest.

Subindo pelo gelo salpicado de rochas do glaciar oriental de Rongbuk, a princípio fez um bom progresso, mas, quando se deu con­ta, enfim, de que não tinha a menor idéia das dificuldades de percorrer um glaciar, começou a se perder com freqüência, cada vez mais exaus­to e frustrado. Mesmo assim recusou-se a desistir.

Em meados de maio, conseguira atingir o topo do glaciar Rongbuk oriental, a 6400 metros, onde atacou um suprimento de comida e equipamentos guardados ali pela mal sucedida expedição de Eric Ship­ton, de 1933. Wilson começou desse ponto a subida das escarpas que levam ao colo norte, chegando até os 6919 metros, antes que um penhasco vertical de gelo o impedisse de prosseguir, forçando-o a recuar até o local onde Shipton deixara as provisões. No entanto, nada havia que pudesse dissuadi-lo. Em 28 de maio escreveu em seu diário: "Esta será a última tentativa e me sinto com sorte". Em seguida rumou para a montanha mais uma vez.

Um ano depois, quando Shipton voltou ao Everest, sua expedição encontrou o corpo congelado de Wilson estendido na neve, no sopé do colo norte. "Depois de discutirmos um pouco, decidimos enterrá-lo numa greta", escreveu Charles Warren, um dos alpinistas que encontra­ram o corpo. "Todos nós tiramos o chapéu, na hora, e desconfio que todos ficaram bastante abalados com a história. Pensei que já estivesse imune ao choque de ver gente morta; mas por um motivo ou outro, nas circunstâncias, e também porque ele estava, afinal de contas, fazendo exatamente o mesmo que nós, parece que sentimos sua tragédia um pouco mais de perto."

A recente proliferação de wilsons e denmans modernos nas encostas do Everest - sonhadores tão pouco qualificados quanto meus companheiros de grupo — é um fenômeno que vem provocando severas críticas. Porém, a questão de quem está ou não qualificado para o Everest é mais complicada do que pode parecer de início. O fato de um alpinista pagar uma enorme quantia para se filiar a uma expedição guia­da não significa, por si só, que ele ou ela não tenham condições de ir para a montanha.

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