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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 48 / 128

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Na verdade, pelo menos duas das expedições comer­ciais ao Everest, na primavera de 1996, incluíam veteranos do Hima­laia que seriam considerados aptos até pelos padrões mais rigorosos.

Em 13 de abril, enquanto esperava, no acampamento 1, que meus companheiros chegassem ao topo da cascata de gelo, dois alpinistas da equipe da Mountain Madness de Scott Fischer passaram por mim num passo de fazer inveja. Um deles era Klev Schoening, um empreiteiro de obras de 38 anos, de Seattle, ex-integrante da equipe nacional de esquia­dores dos Estados Unidos que, embora extraordinariamente forte, possuía pouca experiência anterior em grandes altitudes. No entanto, ia com ele seu tio, Pete Schoening, uma lenda viva do Himalaia.

Vestido com um abrigo desbotado e escangalhado de GoreTex, a poucos meses do sexagésimo aniversário, Pete era um homem compri­do, de costas meio curvadas, que regressava às alturas do Himalaia após uma longa ausência. Em 1958, ele fizera história como a força motriz por trás da primeira escalada do Hidden Peak, uma montanha de 8068 metros na cadeia Karakoram, no Paquistão — a escalada mais alta até então realizada por alpinistas norte-americanos. Pete, porém, era ain­da mais famoso pelo papel heróico que desempenhara na mal sucedida expedição ao K2, em 1953, no mesmo ano em que Hillary e Tenzing chegaram ao pico do Everest.

A equipe de oito homens foi apanhada por uma feroz nevasca, no alto do K2, e esperava para atacar o cume quando um dos integrantes do grupo, chamado Art Gilkey, sofreu uma tromboflebite provocada pela altitude, ou seja, estava com um coágulo sangüíneo que poderia ser fatal. Percebendo que teriam de descer Gilkey imediatamente, para que houvesse a mínima chance de salvá-lo, Schoening e os outros começa­ram a baixá-lo pela empinada crista Abruzzi, em meio à furiosa tempes­tade. Aos 7620 metros, um alpinista chamado George Bell escorregou e levou quatro outros consigo. Por puro reflexo, Pete Schoening enro­lou a corda em volta dos ombros e do piolet e conseguiu, sabe-se lá como, segurar Gilkey sozinho e ao mesmo tempo sustar o escorregão dos cinco sem ser puxado montanha abaixo também. Esse foi um dos feitos mais incríveis registrados nos anais do alpinismo e passou a ser chamado, dali em diante, simplesmente de The Belay. (19)

E agora Pete Schoening estava sendo conduzido ao Everest por Fischer e seus dois guias, Neal Beidleman e Anatoli Boukreev. Quan­do perguntei a Beidleman, um excelente alpinista do Colorado, como se sentia guiando um cliente da estatura de Schoening, ele mais que depressa me corrigiu com uma risada modesta: "Alguém como eu não 'guia' Pete Schoening a parte alguma. Eu apenas considero uma honra imensa estar na mesma equipe que ele". Schoening havia se inscrito no grupo da Mountain Madness não porque precisasse de um guia para levá-lo até o pico, mas sim para evitar a monstruosa chatice de conse­guir um visto de entrada, oxigênio, barracas, provisões, apoio dos sher­pas e outros detalhes logísticos.

Poucos minutos depois que Pete e Klev Schoening passaram por mim a caminho de seu próprio acampamento 1, apareceu uma colega de equipe dos dois: Charlotte Fox, dinâmica e escultural, de 38 anos de idade, patrulheira de esqui em Aspen, Colorado, que já chegara ao topo de dois picos de mais de 8 mil metros: Gasherbrum II, no Paquistão, de 8034 metros, e o vizinho do Everest, Cho Oyu, de 8152 metros. Mais tarde ainda, encontrei um integrante da expedição comercial de Mal Duff, um finlandês de 28 anos chamado Veikka Gustafsson, cujo recor­de em escaladas anteriores no Himalaia incluía o Everest, o Dhaulagiri, o Makalu e o Lhotse.

Por outro lado, nenhum dos clientes de Hall jamais atingira nenhum dos picos de mais de 8 mil metros. Se alguém como Pete Schoen­ing era o equivalente de um grande astro do beisebol americano, meus companheiros pagantes e eu éramos mais ou menos como um bando de quinta categoria de jogadores de várzea, que havíamos faturado nossa escalação no campeonato nacional à base de suborno. Entretanto, no topo da cascata de gelo Hall nos chamara de "uma equipe bem forte". E na verdade éramos fortes, talvez, comparados com os grupos que Hall levara até o alto da montanha em anos anteriores. Para mim, Porém, estava claríssimo que nenhum dos integrantes de meu grupo tinha a mais ínfima chance de escalar o Everest sem a considerável assistência de Hall, de seus guias e sherpas.

Por outro lado, nosso grupo era bem mais competente que vários outros ali presentes. Havia alguns alpinistas com habilidades extremamente duvidosas numa expedição comercial liderada por um inglês sem grandes credenciais no Himalaia. Todavia as pessoas menos qualificadas na realidade não estavam filiadas a nenhuma expedição comercial; integravam expedições não comerciais, estruturadas

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