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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 49 / 128

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nos moldes tradicionais.

Quando eu voltava para a base, passando pela parte inferior da cascata de gelo, ultrapassei dois alpinistas lentos, equipados com umas roupas e uns apetrechos muito esquisitos. Percebi quase na mesma hora que não estavam muito familiarizados com as ferramentas e técnicas convencionais para a travessia de um glaciar. O alpinista que ia atrás com freqüência enganchava os grampões e tropeçava. Esperando até que atravessassem uma ampla greta transposta por duas escadas improvisadas unidas nas pontas, fiquei chocado ao vê-los atravessando juntos, quase grudados — uma ação desnecessariamente perigosa. Uma tentativa canhestra de conversa do outro lado da greta revelou-me que eram integrantes de uma expedição taiwanesa.

A fama dos taiwaneses chegou ao Everest antes deles. Na prima­vera de 1995, a mesma equipe fora ao Alasca para escalar o monte McKinley, em preparação para o ataque ao Everest em 1996. Nove alpinistas atingiram o cume, mas na descida sete deles foram pegos por uma tempestade, ficaram desorientados e passaram a noite ao relento a uma altura de 5913 metros, desencadeando uma operação de resgate cara e perigosa por parte do National Park Service.

Atendendo a um pedido dos guardas-florestais, Alex Lowe e Con­rad Anker, dois dos alpinistas mais experientes dos Estados Unidos, interromperam sua escalada e subiram às pressas 4389 metros para aju­dar os taiwaneses, que estavam mais mortos que vivos. Com grande dificuldade e riscos consideráveis a suas próprias vidas, Lowe e Anker arrastaram os taiwaneses, um de cada vez, dos 5913 metros até os 5242 metros, onde um helicóptero pôde evacuá-los da montanha. Tudo somado, cinco integrantes da equipe taiwanesa - dois com sérias quei­maduras provocadas pelo frio e um já morto — foram tirados do McKinley de helicóptero. "Só um deles morreu", diz Anker. "Porém, Alex e eu não tivéssemos chegado na hora em que chegamos, dois outros também teriam morrido. Já tínhamos reparado no grupo de taiwaneses, porque eles nos pareceram muito incompetentes. Não foi uma surpresa muito grande terem se metido em enrascada."

O líder da expedição, Gau Ming-Ho — um jovial fotógrafo free lance que prefere ser chamado de "Makalu", por causa do belíssimo pico de mesmo nome, no Himalaia —, estava exausto, com graves quei­maduras causadas pelo frio, e precisou ser auxiliado por dois guias alasquianos para descer a montanha. "Quando os alasquianos o leva­ram para baixo", conta Anker, "Makalu estava berrando: 'Vitória! Vitória! Fizemos o cume!', para todo mundo que passasse, como se o desastre não tivesse acontecido. É, aquele Makalu sempre me pareceu muito esquisito." Quando os sobreviventes do desastre no McKinley apareceram no lado sul do Everest, em 1996, Makalu Gau era de novo o líder.

A presença dos taiwaneses no Everest era motivo de grande preo­cupação para a maioria das outras expedições. Havia um temor genuí­no de que sofressem uma nova calamidade que obrigaria outras expe­dições a irem em seu auxílio, pondo em risco novas vidas, para não mencionar o fato de que estariam pondo em risco a oportunidade de outros alpinistas atingirem o cume. Porém, os taiwaneses não eram, em hipótese alguma, os únicos que pareciam escandalosamente desquali­ficados. Acampado a nosso lado havia um alpinista norueguês chama­do Petter Neby, cuja intenção era fazer uma escalada solitária da face sudoeste, (20) um dos trajetos mais perigosos e tecnicamente exigentes até o pico — apesar de toda a sua experiência no Himalaia resumir-se a duas escaladas do vizinho Island Peak, uma elevação de 6179 metros numa crista subsidiária do Lhotse que não envolvia nada mais exigen­te, do ponto de vista técnico, que uma caminhada vigorosa.

E havia ainda os sul-africanos. Patrocinada por um dos principais jornais do país, o Sunday Times de Johannesburg, a equipe inspirara um efusivo orgulho nacional e recebera as bênçãos pessoais do presidente Nelson Mandela, antes de partir. Integravam a primeiríssima expedição sul-africana a conseguir permissão para escalar o Everest, composta por um grupo de negros e brancos cuja aspiração era colocar a primei­ra pessoa negra no cume. O líder era Ian Woodall, 39 anos, um homem franzino e falante que adorava contar histórias sobre seus bravos feitos militares atrás das linhas inimigas, durante o longo e brutal conflito da África do Sul com Angola, nos anos 80.

Woodall recrutara três dos melhores alpinistas de seu país para for­mar o núcleo da expedição: Andy de Klerk, Andy Hackland e Edmund February. A composição birracial da equipe tinha um significado especial para February, quarenta anos, paleoecologista de fala mansa e alpi­nista de renome internacional. "Meus pais me deram o nome de sir Edmund Hillary", ele explica. "Escalar o Everest

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