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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 50 / 128

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sempre foi um sonho meu, desde muito jovem. É mais significativo ainda que eu veja essa expedição como um símbolo poderoso de uma jovem nação tentando se unir e avançar rumo à democracia, tentando se recuperar do passado. Eu cresci com o jugo do apartheid em volta do pescoço e, sob vários aspec­tos, tenho uma profunda amargura por causa disso. Mas agora somos um novo país. Acredito convictamente na direção que meu país está toman­do. Mostrar que nós, na África do Sul, podemos escalar o Everest jun­tos, negros e brancos no topo. Seria fantástico."

O país inteiro mobilizou-se em apoio à expedição. "Woodall apre­sentou o projeto num momento muito feliz", diz De Klerk. "Com o fim do apartheid, os sul-africanos enfim tiveram permissão de viajar para onde bem entendessem, e nossas equipes esportivas puderam competir no mundo todo. A África do Sul tinha acabado de vencer a Copa Mun­dial de rúgbi. Havia uma euforia nacional, um orgulho enorme crescendo, certo? De modo que, quando Woodall apareceu e propôs uma expedição sul-africana ao Everest, todo mundo foi a favor e ele conseguiu arrecadar um monte de dinheiro — o equivalente a várias centenas de milhares de dólares americanos —, sem que ninguém fizesse muitas perguntas."

Além de si mesmo, dos três alpinistas do sexo masculino e de um alpinista e fotógrafo britânico chamado Bruce Herrod, Woodall queria incluir também uma mulher na expedição, de modo que, antes de par­tir da África do Sul, convidou seis candidatas para participarem de uma escalada fisicamente terrível, mas tecnicamente pouco exigente, do Kilimanjaro, uma montanha com 5894 metros. Ao fim dos testes de duas semanas, Woodall anunciou que ficara com duas finalistas: Cathy O'Dowd, 26 anos, professora de jornalismo com limitada experiência em alpinismo, cujo pai é o diretor da Anglo American, a maior empre­sa da África do Sul; e Deshun Deysel, 25 anos, negra, professora de educação física sem nenhum tipo de experiência alpina, que crescera numa township, totalmente segregada dos brancos. As duas mulheres, disse Woodall, acompanhariam a equipe até o acampamento-base e ali ele escolheria qual delas continuaria até o Everest, após avaliar a atua­ção de ambas durante a caminhada.

No dia 1º de abril, durante o segundo dia da caminhada até o acam­pamento-base, levei um susto ao topar com February, Hackland e De Klerk na trilha abaixo de Namche Bazaar, saindo da montanha, a cami­nho de Katmandu. De Klerk, que é amigo meu, informou-me que os três alpinistas sul-africanos e Charlotte Noble, a médica da equipe, haviam se desligado da expedição antes mesmo de chegar à base da montanha. "Acabamos percebendo que Woodall, o líder, é um perfeito cretino", explicou De Klerk. "Um imbecil descontrolado. Não dá para confiar nele — a gente nunca sabe quando está dizendo a verdade ou mentindo. Não quisemos botar nossa vida nas mãos de um cara assim. Por isso viemos embora."

Woodall afirmara a De Klerk e aos outros que já escalara várias vezes o Himalaia, inclusive com subidas acima dos 7900 metros. Na verdade toda a carreira alpinista de Woodall no Himalaia resumia-se em ter chegado aos 6490 metros como cliente pagante de uma expedição comercial ao Annapurna, liderada por Mal Duff, em 1990.

Além do mais, antes de partir para o Everest, Woodall alardeara, pelo site da expedição na Internet, que fizera uma gloriosa carreira mili­tar, na qual escalara todos os postos do exército britânico até "o comando da unidade de elite do Long Range Mountain Reconnaissance, que por sinal fizera boa parte de seu treinamento no Himalaia". Contou ao Sunday Times que também fora instrutor na Real Academia Militar de Sandhurst, Inglaterra. Como se descobriu depois, não existe uma unida­de chamada Long Range Mountain Reconnaissance no exército britâni­co, e Woodall nunca serviu como instrutor em Sandhurst. Aliás, ele nunca combateu atrás das linhas inimigas em Angola. Segundo um porta-voz do exército britânico, Woodall era apenas um burocrata que fazia parte da folha de pagamento.

Woodall também mentiu sobre quem havia conseguido a permis­são para escalar o Everest, (21) concedida pelo Ministério do Turismo do Nepal. Desde o início ele dissera que tanto o nome de Cathy O'Dowd como o de Deshun Deysel constavam da licença, e que a decisão final sobre qual delas seria convidada a integrar o grupo de alpinistas seria tomada no acampamento-base. Depois de se desligar da expedição, De Klerk descobriu que Cathy O'Dowd estava registrada, assim como o pai de Woodall, de 69 anos, e um francês chamado Tierry Renard (que pagou 35 mil dólares a Woodall para integrar a equipe sul-africana), porém Deshun Deysel - a única integrante negra após o desligamen­to de Ed February - não estava registrada. De onde De Klerk concluiu que Woodall nunca tivera a menor intenção de deixar Deysel escalar a montanha.

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