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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 51 / 128

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Como se não fosse o suficiente, antes de sair da África do Sul Woodall advertira De Klerk - que é casado com uma americana e tem dupla nacionalidade — que ele não integraria a expedição a menos que concordasse em usar seu passaporte sul-africano para entrar no Nepal. "Ele fez um grande escarcéu sobre isso", lembra-se De Klerk, "porque éramos a primeira expedição sul-africana ao Everest e toda aquela coisa. Acontece que o próprio Woodall não tem passaporte sul-africa­no. Ele não é sequer um cidadão da África do Sul — o cara é britânico e entrou no Nepal com passaporte britânico."

As inúmeras tramóias de Woodall tornaram-se um escândalo internacional, motivo de manchetes de primeira página em jornais de toda a Comunidade Britânica. À medida que as notícias negativas foram chegando até ele, o megalomaníaco resolveu ignorar as críticas e isolou seu grupo tanto quanto possível das outras expedições. Tam­bém expulsou o repórter do Sunday Times, Ken Vernon, e o fotógrafo Richard Shorey da expedição, embora tivesse assinado um contrato estipulando que, em troca do apoio financeiro do jornal, os dois jorna­listas teriam "permissão para acompanhar a expedição o tempo todo", e que o não-cumprimento dessa cláusula seria "motivo para anulação

do contrato".

O editor do Sunday Times, Ken Owen, estava nesse momento a caminho do acampamento-base, em companhia da mulher. O casal estava de férias na região, fazendo trekking. Haviam planejado para que as férias coincidissem com a expedição sul-africana ao Everest, e os dois estavam sendo guiados pela namorada de Woodall, uma jovem francesa chamada Alexandrine Gaudin. Em Pheriche, Owen ficou sabendo que Woodall dera o fora em seu repórter e em seu fotógrafo. Atônito, mandou um bilhete ao líder da expedição, explicando que o jornal não tinha a menor intenção de tirar Vernon e Shorey da história e que os jornalistas haviam recebido ordens de se unir novamente ao grupo. Quando Woodall recebeu a mensagem, teve um acesso de fúria e partiu a toda para Pheriche, a fim de tomar satisfações com Owen.

Segundo Owen, durante o confronto que se seguiu, ele perguntou sem rodeios a Woodall se o nome de Deysel estava na licença. Woodall retrucou: "Isso não é da sua conta".

Quando Owen sugeriu que Deysel fora reduzida a "servir de sím­bolo pro forma do sul-africanismo espúrio da expedição", Woodall ameaçou matar Owen e sua mulher. Em determinado momento, o exaltadíssimo líder da expedição declarou: "Eu vou arrancar sua cabeça e enfiá-la no seu rabo".

Pouco depois disso, o jornalista Ken Vernon chegou ao acampa­mento-base dos sul-africanos — o incidente foi transmitido pela pri­meira vez do fax via satélite de Rob Hall — e foi logo sendo informado "por uma Cathy O' Dowd de cara muito feia que eu 'não era bem-vindo' ao acampamento". Como escreveu mais tarde, no Sunday Times:

Eu disse a ela que não tinha nenhum direito de barrar minha entrada num acampamento que fora pago pelo meu jornal. Depois que a apertei mais um pouco, ela admitiu que estava agindo "segundo as instruções" de Woodall. Disse-me que Shorey já havia sido expulso do acampamento e que eu devia ir embora, já que não teria comida nem abrigo lá. Minhas pernas ainda estavam bambas da subida e, antes de decidir entre lutar contra a sentença ou ir embora, pedi uma xícara de chá. "De jeito nenhum", foi a resposta. Em seguida Cathy O'Dowd foi até o líder da equipe de sherpas, Ang Dorje, e disse, de modo que eu a ouvisse: "Este é Ken Vernon, já falamos sobre ele com você. Ele não deve receber nenhum tipo de assistência". Ang Dorje é uma verdadeira rocha de homem, forte e nodoso, com quem eu já partilhara vários copos de chang, a potentíssi­ma bebida local. Olhei para ele e disse: "Nem mesmo uma xícara de chá?". Ang Dorje, na melhor tradição da hospitalidade sherpa, olhou para Cathy O'Dowd e disse: "Uma ova". Pegou-me pelo braço, arrastou-me até a barraca do refeitório e me serviu um caneco de chá fumegante e um prato de biscoitos.

Após o que Owen qualificou como seu "bate-boca aterrador" com Woodall, em Pheriche, o editor ficou "convencido [...] de que havia uma atmosfera alucinada entre os integrantes da expedição e de que os funcionários do Sunday Times, Ken Vernon e Richard Shorey, podiam estar correndo perigo de vida". Owen, portanto, instruiu Vernon e Shorey a voltarem para a África do Sul e o jornal publicou uma declaração afirmando que rescindira seu contrato de patrocínio com a expe­dição.

Como Woodall já tivesse recebido o dinheiro do jornal, entretan­to, esse ato foi puramente simbólico e não teve o menor impacto em suas atitudes na montanha. Na verdade, Woodall recusou-se a deixar

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