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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 52 / 128

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a liderança da expedição ou a chegar a algum tipo de meio-termo, mes­mo após ter recebido uma carta do presidente Mandela, apelando por uma reconciliação em virtude de a questão ser de interesse nacional. Woodall, teimoso, insistiu que a escalada do Everest prosseguiria con­forme o planejado, com ele firme no comando.

Na Cidade do Cabo, depois que a expedição se desfez, February falou sobre sua decepção. "Talvez eu tenha sido ingênuo", ele disse, com voz entrecortada e carregada de emoção. "Mas odiei ter crescido sob o apartheid. Escalar o Everest com Andrew e os outros teria sido um grande símbolo, para mostrar que os velhos tempos acabaram de fato. Woodall não tinha nenhum interesse no nascimento de uma nova África do Sul. Ele pegou os sonhos de toda uma nação e usou-os para seus próprios objetivos egoístas. A decisão de largar a expedição foi a mais difícil de toda minha vida."

Com a partida de February, Hackland e De Klerk, nenhum dos alpinistas que permaneceram na equipe (à exceção do francês Renard, que se unira à expedição apenas para constar da licença e que escalou independentemente dos outros, com seus próprios sherpas) tinha mais do que uma experiência alpina mínima; pelo menos dois deles, diz De Klerk, "não sabiam nem como colocar os grampões".

O norueguês solitário, os taiwaneses e sobretudo os sul-africanos eram tópicos freqüentes das conversas na barraca-refeitório de Hall. "Com tanta gente incompetente na montanha", Rob disse de cenho franzido, no final de abril, "eu acho bem improvável que cheguemos ao fim da temporada sem que aconteça alguma coisa muito ruim lá em cima."

8.Acampamento 1

16 de abril de 1996

5900 m

Duvido que alguém possa afirmar ter aproveitado a vida em grandes altitudes digo "aproveitar" no sentido comum da palavra. Há uma certa satisfação sinistra em ir avançando peno­samente rumo ao topo, ainda que em ritmo muito lento; porém a maior parte do tempo é passada, por força das circunstâncias, em meio à sordidez de um acampamento avançado, onde até mes­mo esse consolo é negado. Fumar é impossível; comer em geral provoca ânsia de vômito; a necessidade de reduzir ao máximo o peso da carga limita a literatura disponível aos rótulos dos enla­tados; nódoas de óleo de sardinha, leite condensado e melado espalham-se por toda parte; fora momentos brevíssimos, duran­te os quais em geral não estamos com verve para apreciações estéticas, não há nada para se olhar, exceto a desolada mixórdia dentro da barraca e a cara descascada e barbuda do companhei­ro - por sorte o barulho do vento em geral abafa o nariz entu­pido do outro; pior de tudo é a sensação de completa impotência e a incapacidade de lidar com toda e qualquer emergência que possa surgir. Costumava me consolar pensando que, um ano atrás, eu me encontrava completamente tomado pela simples idéia de participar da atual aventura, uma perspectiva que, na época, me parecia um sonho impossível; porém, a altitude tem efeito idêntico na mente e no corpo, nosso intelecto fica embota­do, não reage, e meu único desejo era terminar aquela tarefa infernal e descer para um clima mais ameno.

Eric Shipton

Upon that mountain

Pouco antes do amanhecer, no dia 16 de abril, uma terça-feira, depois de descansarmos dois dias no acampamento-base, partimos rumo à cascata de gelo para começar nossa segunda excursão de aclimatação. Enquanto eu caminhava nervoso e com o maior cuidado por aquela desordem gelada, de entranhas gementes, reparei que eu não arfava tanto quanto na primeira viagem ao glaciar; meu corpo já come­çara a se adaptar à altitude. Mas meu receio de ser esmagado por um serac despencando das alturas continuava pelo menos tão grande quan­to antes.

Eu torcera para que a gigantesca torre pendurada a 7590 metros de altitude — batizada de Ratoeira por algum gaiato da equipe de Fischer -já tivesse despencado a essas alturas, mas lá estava ela, precariamen­te de pé, ainda mais inclinada. Mais uma vez, eu quase ultrapassara os limites de meu sistema cardiovascular, subindo rapidamente para con­tornar aquela sombra ameaçadora. E, de novo, caí de joelhos ao chegar ao topo do serac, sem fôlego e tremendo com o excesso de adrenalina que corria pelas veias.

Ao contrário da primeira incursão, durante a qual passamos menos de uma hora no acampamento 1 antes de voltarmos à base, Rob pretendia passar as noites de terça e quarta-feira no acampamento 1, prosseguindo depois até o acampamento 2, onde ficaríamos mais três noites, antes de descermos.

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