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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 53 / 128

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As 9h00, quando cheguei ao local do acampamento 1, Ang Dorje, (22) nosso sirdhr (23) de alta montanha, estava escavando algumas plata­formas para nossas barracas, num declive coberto de neve congelada. Aos 29 anos, esbelto, de feições delicadas, com um temperamento tímido e sujeito a mudanças bruscas, Ang tem uma força física extraordinária. Enquanto esperava meus colegas chegarem, peguei uma pá e comecei a ajudá-lo a escavar. Em poucos minutos eu já estava exausto pelo esforço e tive que sentar para descansar, provocando uma sonora risada por parte do sherpa. "Está se sentindo bem, Jon?", ele perguntou, zombeteiro. "Isto aqui é apenas o acampamento 1, 6 mil metros. O ar aqui ainda é bem consistente."

Ang Dorje vinha de Pangboche, um aglomerado de casas de pedra e plantações de batata em terraços pendurados numa encosta acidenta­da, a 3962 metros de altitude. Seu pai é um respeitado sherpa alpinista que lhe ensinou, quando ele ainda era muito jovem, os fundamentos básicos do alpinismo, para que o menino tivesse chances de entrar no mercado. Na época em que Ang Dorje entrou na adolescência, o pai ficou cego por causa de catarata e Ang Dorje teve que largar a escola para sustentar a família.

Em 1984, ele estava trabalhando como assistente de cozinheiro para um grupo de trekkers ocidentais, quando chamou a atenção de Marion Boyd e Graem Nelson, um casal canadense. Marion disse: "Eu estava sentindo falta de meus filhos e, à medida que ia conhecendo Ang Dorje, ele me fazia lembrar cada vez mais do meu filho mais velho. Ang Dorje era inteligente, interessado, ávido em aprender e quase exage­rado em sua consciência do dever. Estava carregando uma carga enor­me e seu nariz sangrava todos os dias em grandes altitudes. Fiquei comovida".

Depois de obter a aprovação da mãe de Ang Dorje, Marion Boyd e Graem Nelson começaram a apoiar financeiramente o jovem sherpa, para que ele pudesse voltar à escola. "Eu nunca mais vou esquecer seu exame de admissão [para poder se matricular na escola regional de pri­meiro grau de Khumjung, construída por sir Edmund Hillary]. Era um menino de estatura miúda, na pré-pubescência. Estávamos amontoa­dos numa saleta pequena junto com o diretor e quatro professores. Ang Dorje ficou no meio, com os joelhos tremelicando enquanto tentava ressuscitar o pouco do que aprendera formalmente no exame oral. Todos nós estávamos suando frio [...] mas ele foi aceito, com a condi­ção de sentar-se ao lado das crianças pequenas das primeiras séries."

Ang Dorje tornou-se um estudante capaz e conseguiu tirar o diplo­ma equivalente ao das oito séries do primeiro grau antes de largar os estudos e voltar a trabalhar na indústria do alpinismo e trekking. Marion Boyd e Graem Nelson, que voltaram ao Khumbu várias vezes, acom­panharam seu amadurecimento. "Podendo pela primeira vez na vida ter uma boa dieta, começou a crescer e a ficar forte", lembra-se Marion. "Ele nos contou, muito animado, sobre o dia em que aprendeu a nadar numa piscina em Katmandu. Aos 25 anos, por aí, aprendeu a andar de bicicleta e teve uma paixonite rápida pela música de Madonna. Percebemos que ele estava totalmente crescido quando nos ofereceu seu primeiro presente, um tapete tibetano escolhido com cuidado. Ele queria dar, não receber."

Quando a reputação de Ang Dorje, de ser um alpinista resistente e hábil, espalhou-se entre os ocidentais, foi promovido a sirdar e, em 1992, foi trabalhar com Rob Hall no Everest. Por ocasião de nossa expedição de 1996, Ang Dorje já escalara o pico três vezes. Com res­peito e afeto genuíno, Hall se referia a ele como "meu homem princi­pal", e mencionou várias vezes que considerava o papel de Ang Dorje fundamental para o sucesso da expedição.

O sol já estava forte quando o último de meus companheiros che­gou ao acampamento 1, porém por volta do meio-dia uma mancha de altos cirros, vindos do sul, havia coberto o céu; às três da tarde as nuvens rodopiavam sobre o glaciar e a neve batia nas barracas com um clamor enfurecido. A nevasca durou a noite inteira; pela manhã, quando enga­tinhei para fora do abrigo que dividia com Doug, uma camada de mais de trinta centímetros de neve cobria o glaciar. Dúzias de avalanches rugiam pelos íngremes paredões acima, porém nosso acampamento estava fora de alcance.

Às primeiras luzes do dia 18 de abril, uma quinta-feira, as nuvens já se haviam dissipado e nós juntamos nossos pertences, rumo ao acam­pamento 2, a quase 6,5 quilômetros dali e 518 metros verticais acima. Nossa rota atravessava o chão suavemente inclinado do Circo Oeste, o mais alto canyon do mundo, um desfiladeiro em forma de ferradura escavado no coração do maciço do Everest pelo glaciar do Khumbu. Os taludes de 7860 metros do Nuptse definiam a parede direita do Circo, a

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