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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 54 / 128

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gigantesca face sudoeste do Everest formava o paredão esquerdo e a larga barreira congelada do flanco do Lhotse assomava lá no alto.

A temperatura estava baixíssima quando saímos do acampamen­to 1, transformando minhas mãos em dois pedaços congelados e dolo­ridos de carne, mas, quando os primeiros raios de sol atingiram o glaciar, os paredões salpicados de gelo do Circo Oeste recolheram e ampliaram o calor como um gigantesco forno solar. De repente eu esta­va fervendo e temi que me viesse mais uma daquelas dores de cabeça tão intensas quanto uma enxaqueca, como a que me martelara o cére­bro no acampamento-base. Tirei então a roupa, fiquei só de ceroula e camiseta de mangas compridas e enfiei um punhado de neve debaixo do boné de beisebol. Pelas três horas seguintes eu me arrastei glaciar acima, parando apenas para tomar uns goles de água e substituir o esto­que de neve do boné, à medida que ela ia derretendo sobre meu cabelo emaranhado.

A 6400 metros, zonzo de calor, topei com um grande objeto embrulhado em plástico azul, ao lado da trilha. A massa cinzenta, entorpecida pela altitude, levou um ou dois minutos para compreender que aquele objeto era um corpo humano. Chocado e perturbado, fiquei ali olhando o embrulho vários minutos. Aquela noite, quando pergun­tei a Rob, ele disse que não tinha muita certeza, mas achava que a víti­ma era um sherpa que morrera ali três anos antes.

O acampamento 2, a 6400 metros, era composto por umas 120 barracas espalhadas pelas rochas nuas, junto à morena lateral, na bor­da do glaciar. A altitude, ali, manifestava-se como uma força maldosa, fazendo-me sentir como se estivesse com uma ressaca colossal de vi­nho tinto. Indisposto demais para comer ou mesmo ler, durante os dois dias seguintes fiquei a maior parte do tempo deitado na barraca, a cabe­ça entre as mãos, tentando me mexer o mínimo possível. No sábado, sentindo-me um pouco melhor, escalei mais trinta metros acima do acampamento, para fazer um pouco de exercício e acelerar minha acli­matação. Ali, no topo do Circo, a cinqüenta metros da trilha principal, topei com mais um corpo na neve ou, mais precisamente, a metade infe­rior de um corpo. O estilo das roupas e as botas antigas de couro suge­riam que o morto devia ser europeu e que estava lá estirado na monta­nha havia pelo menos dez ou quinze anos.

O primeiro cadáver me deixara muito abalado por várias horas; o choque de encontrar o segundo passou quase instantaneamente. Poucos dos alpinistas que passaram pelos dois locais deram aos corpos mais que uma olhada rápida. Havia como que um acordo tácito na mon­tanha para fingir que esses restos dessecados não eram reais — como se nenhum de nós tivesse coragem de admitir o que estava em jogo ali.

Na segunda-feira, 22 de abril, um dia depois de voltar do acampa­mento 2 para a base, Andy Harris e eu fomos até a expedição sul-afri­cana para conhecer a equipe e tentar entender por que haviam se torna­do tamanhos párias. A quinze minutos de nossas barracas, mais abaixo no glaciar, o acampamento deles estava empilhado sobre uma corcova de detritos glaciares. As bandeiras nacionais do Nepal e da África do Sul, juntamente com flâmulas de empresas como Kodak, Apple Com­puter e outros patrocinadores, tremulavam no alto de postes de alumí­nio. Andy enfiou a cabeça na porta da barraca do refeitório deles, abriu seu sorriso mais encantador e perguntou: "Ei, tem alguém em casa?".

Ficamos sabendo então que Ian Woodall, Cathy O'Dowd e Bruce Herrod estavam na cascata de gelo, descendo do acampamento 2, mas a namorada de Woodall, Alexandrine Gaudin estava lá, assim como seu irmão, Philip. Também na barraca estava uma jovem alegre que se apre­sentou como Deshum Deysel e que de imediato convidou-nos para tomar um chá. Os três não pareciam nem um pouco preocupados com o comportamento repreensível de Woodall e com os boatos da iminen­te dissolução de sua expedição.

"Fui escalar no gelo pela primeira vez na vida outro dia", Deshum Deysel adiantou cheia de entusiasmo, sem que tivéssemos lhe pergun­tado nada, apontando para um serac nas proximidades, onde alpinistas de várias expedições haviam treinado escalada no gelo. "Achei muito emocionante. Espero subir a cascata de gelo em poucos dias." Minha intenção fora perguntar-lhe o que achava da desonestidade de Woodall e como se sentiu ao saber que ficara de fora da licença para escalar o Everest, mas ela estava tão contente e era tão ingênua que não tive cora­gem. Depois de uns vinte minutos de papo, Andy fez um convite exten­so a toda a equipe, incluindo Woodall, "para aparecer em nosso acam­pamento para um traguinho rápido" mais tarde, naquela noite.

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