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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 55 / 128

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Ao voltar para nosso acampamento, encontrei Rob, a dra. Caroline Mackenzie e a médica de Scott Fischer, Ingrid Hunt, envolvidos numa conversa tensa pelo rádio com alguém que estava mais acima. Algumas horas antes, Fischer estava descendo do acampamento 2 para o acampa­mento-base quando encontrou um de seus sherpas, Ngawang Topche, sentado no glaciar, a 6400 metros de altura. Aos 38 anos, Ngawang, natu­ral do vale Rolwaling, tinha dentes espaçados e natureza doce: Estava transportando carga e executando outras tarefas acima do acampamento-base havia três dias, mas os companheiros sherpas andavam reclamando que ele ficava sentado à toa e não fazia sua parte do trabalho.

Quando Fischer questionou Ngawang, ele admitiu que fazia dois dias que estava se sentindo fraco e sem fôlego, de modo que Fischer lhe disse para descer imediatamente até o acampamento-base. Porém, há um certo machismo na cultura sherpa que torna muitos homens relutan­tes em admitir qualquer enfermidade física. No entender deles próprios, os sherpas não contraem o mal da montanha, sobretudo os nativos da região de Rolwaling, famosa por seus alpinistas fortíssimos. Além do mais, aqueles que ficam doentes e admitem-no, abertamente, em geral entram para a lista negra e não arrumam colocação em expedições futu­ras. E assim foi que Ngawang ignorou as instruções de Fischer e, em vez de descer, subiu até o acampamento 2 para passar a noite.

Quando chegou às barracas, no final da tarde, Ngawang estava delirando, tropeçando feito um bêbado e expelindo uma espuma rósea, salpicada de sangue: sintomas que indicam um caso avançado de hape, High Altitude Pulmonary Edema [Edema Pulmonar de Grande Altitude] — uma doença misteriosa, potencialmente letal, típica de quem sobe muito alto e muito depressa, em que os pulmões se enchem de líquido. (24) A única cura de fato para o hape é a descida, o quanto antes; se o doente permanecer em grandes altitudes por muito tempo, o resul­tado em geral é a morte.

Ao contrário de Hall, que insistia para que nosso grupo permane­cesse unido durante a escalada acima do acampamento-base, sob a cer­rada vigilância dos guias, Fischer acreditava em dar aos clientes ampla liberdade de subir e descer a montanha sozinhos, durante o período de aclimatação. Em conseqüência disso, quando se confirmou que Ngawang estava gravemente doente no acampamento 2, quatro dos clientes de Fischer estavam presentes — Dale Kruse, Pete Schoening, Klev Schoening e Tim Madsen —, mas não havia nenhum guia. A responsa­bilidade, portanto, de iniciar o resgate de Ngawang ficou com Klev Schoening e Madsen — este último um patrulheiro de esqui de Aspen, Colorado, de 33 anos, que nunca subira acima de 4300 metros até essa expedição, da qual fora persuadido a participar pela namorada, a vete­rana do Himalaia Charlotte Fox.

Quando entrei no refeitório de Hall, a dra. Mackenzie estava ao rádio, dizendo a alguém no acampamento 2: "Dê a Ngawang acetazo­lamida, dexametasona e dez miligramas de nifedipina sublingual. [...] Sim, eu sei dos riscos. Mas dê assim mesmo. [...] Estou lhe dizendo, o perigo de que ele morra de hape antes que possamos descê-lo é muito, muito maior que o perigo de que a nifedipina reduza sua pressão san­güínea a níveis perigosos. Por favor, confie em mim nessa questão! Dê-lhe a medicação! Rápido!".

No entanto, nenhum dos remédios pareceu funcionar, assim como também não ajudou dar-lhe oxigênio suplementar nem colocá-lo den­tro de uma câmara hiperbárica - uma câmara inflável de plástico, mais ou menos do tamanho de um caixão, onde a pressão atmosférica é aumentada para simular uma altitude menor. E assim, com o dia já escurecendo, Schoening e Madsen começaram a arrastar Ngawang montanha abaixo com grande dificuldade, usando a câmara hiperbári­ca desinflada como um tobogã improvisado, enquanto Neal Beidleman e um grupo de sherpas vinham o mais depressa possível do acampa­mento-base para encontrá-los.

Beidleman alcançou Ngawang ao pôr do sol, perto do topo da cascata de gelo, e assumiu o comando do resgate, permitindo que Schoening e Madsen voltassem ao acampamento 2 para continuar com a aclimatação. O sherpa tinha tanto líquido nos pulmões, Beidleman contou, "que quando ele respirava fazia um barulho igual ao de alguém chupando as últimas gotas do fundo de um copo de milkshake com um canudinho. Mais ou menos na metade da cascata de gelo, Ngawang tirou a máscara de oxigênio e enfiou a mão lá dentro para tirar um pouco da secreção que entrara na válvula. Quando ele retirou a mão, focalizei minha lanterna em sua luva e ela estava completamente vermelha, encharcada com o sangue que ele vinha cuspindo na máscara. Depois iluminei o rosto dele e também estava coberto de

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