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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 56 / 128

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sangue".

"Ngawang olhou para mim e vi quão assustado ele estava", Bei­dleman continuou. "Pensando rápido, menti e disse a ele para não se preocupar, que o sangue vinha de um corte que fizera no lábio. Isso o acalmou um pouco e continuamos a descer." Para evitar que Ngawang fizesse muito esforço, o que teria exacerbado o edema, em vários pon­tos, durante a descida, Beidleman carregou-o nas costas. Já passava da meia-noite quando atingiram o acampamento-base.

Na manhã seguinte, terça-feira, Fischer chegou a pensar em cha­mar um helicóptero para levar Ngawang do acampamento-base até Katmandu, a um custo entre 5 e 10 mil dólares. Porém, tanto Fischer como a dra. Hunt estavam convencidos de que o estado do sherpa melhoraria depressa, agora que estava 1126 metros mais baixo que o acampamento 2 — aliás, descer uns novecentos metros em geral é o suficiente para uma total recuperação de hape. O resultado foi que, em vez de ser retirado por helicóptero, Ngawang começou a descer o vale a pé, escoltado por alguns sherpas. Logo abaixo do acampamento-base, entretanto, ele desmaiou e teve de ser levado de volta ao acampamento da Mountain Madness para tratamento, onde seu estado continuou a piorar por todo o dia. Quando a dra. Hunt tentou colocá-lo de volta na câmara hiperbárica, Ngawang recusou-se, argumentando que ele não estava com hape nem com nenhuma outra doença relacionada à altitu­de. Então a dra. Hunt entrou em contato por rádio com o médico norte-americano Jim Litch — uma das eminências no campo altamente espe­cializado da medicina de grandes altitudes, que naquela primavera integrava a equipe da clínica da Associação de Socorro do Himalaia, em Pheriche —, pedindo-lhe que fosse o mais rápido possível ao acam­pamento-base para acompanhar o tratamento de Ngawang.

Fischer, a essa altura, partira para o acampamento 2 a fim de des­cer com Tim Madsen, que se exaurira ao arrastar Ngawang para baixo do Circo Oeste e, em seguida, adoecera com leves sintomas de hape. Na ausência de Fischer, a dra. Hunt conversou com os outros médicos do acampamento-base, mas foi forçada a tomar algumas decisões críticas por si mesma. Como observou um de seus colegas: "Ingrid estava com­pletamente perdida".

Com vinte e poucos anos, sem nenhuma experiência em alpinismo, a dra. Hunt acabara de completar seu estágio como interna em medici­na familiar, embora já tivesse trabalhado muitas vezes como voluntária médica nos sopés das montanhas do leste do Nepal; no entanto, ela não tinha nenhuma experiência prévia em medicina de grandes altitudes. Conhecera Fischer por acaso, alguns meses antes em Katmandu, quando ele estava finalizando a papelada da licença para escalar o Everest, e na seqüência fora convidada a acompanhar a expedição, no duplo papel de médica da equipe e gerente do acampamento-base.

Embora tenha manifestado certa ambivalência em relação ao convite, em carta enviada a Fischer em janeiro, a dra. Hunt acabou aceitan­do o emprego não remunerado e chegou ao Nepal no final de março, ansiosa em contribuir para o sucesso da expedição. Mas as exigências de administrar o acampamento-base e de, ao mesmo tempo, fornecer apoio médico a 25 pessoas acabaram sendo demais para ela. (Já Rob Hall pagava duas pessoas muito experientes, trabalhando em tempo integral — a médica da equipe, Caroline Mackenzie, e a gerente do acampamento-base, Helen Wilton — para fazer o que a dra. Hunt fazia sozinha e sem salário.) Para completar suas dificuldades, Ingrid Hunt teve problemas para se aclimatar, sofreu dores de cabeça tremendas e falta de ar durante boa parte de sua estada no acampamento-base.

Depois que Ngawang desmaiou, tentando descer o vale a pé, na terça-feira de manhã, foi levado de volta para o acampamento-base; ele não recebeu mais oxigênio artificial, embora seu estado continuasse a se deteriorar, em parte porque insistia, teimosamente, que não estava doente. Às sete horas da noite o dr. Litch chegou, depois de uma longa subida de Pheriche até lá; sugeriu com grande ênfase que a dra. Hunt começasse a dar oxigênio a Ngawang em fluxo máximo e que depois chamasse um helicóptero.                              

Por essa altura Ngawang perdia e recobrava a consciência, inter­mitentemente, tendo muita dificuldade para respirar. Foi pedido um resgate por helicóptero para a manhã de quarta-feira, 24 de abril, porém as nuvens e as rajadas de neve inviabilizaram o vôo, de modo que Ngawang foi colocado num cesto e, sob os cuidados da dra. Hunt, car­regado glaciar abaixo até Pheriche, nas costas dos sherpas.

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