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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 57 / 128

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Naquela tarde o cenho franzido de Hall denunciava sua preocupa­ção. "Ngawang está muito mal", disse. "Foi um dos piores casos de ede­ma pulmonar que já vi. Deviam tê-lo tirado daqui de helicóptero ontem, quando era possível. Se o doente num estado assim tão grave tivesse sido um cliente, em vez de um sherpa, acho que Fischer não o teria tra­tado assim com tanta negligência. Até eles conseguirem chegar a Pheriche, pode ser tarde demais para Ngawang."

Quando o sherpa chegou à clínica de Pheriche, na quarta-feira ao anoitecer, depois de um trajeto de doze horas, seu estado continuava a piorar, apesar de estar então a 4267 metros de altitude (que não é muito maior do que a altitude da aldeia onde passara grande parte da vida), obrigando a dra. Hunt a colocá-lo dentro da câmara hiperbárica, pres­surizada, apesar de seus protestos. Incapaz de compreender os benefí­cios da câmara inflável e aterrorizado com aquilo, Ngawang pediu que chamassem um monge budista e, antes de consentir que o zíper daque­le interior claustrofóbico fosse fechado, exigiu que pusessem a seu lado, dentro do saco, alguns livros de orações.

Para que a câmara hiperbárica funcione direito, um assistente tem que injetar, sem cessar, ar fresco para dentro da câmara com um pedal. Na quarta-feira à noite, a dra. Hunt estava exausta, depois de ter cuida­do de Ngawang durante quase 48 horas sem parar, de modo que passou a responsabilidade de bombear o ar para a câmara a vários dos amigos sherpas de Ngawang. Enquanto ela cochilava, um desses sherpas notou pelo visor de plástico da câmara que Ngawang estava espumando na boca e que, aparentemente, tinha parado de respirar.

Acordada com essa notícia, a dra. Hunt de imediato abriu o saco, começou um ressuscitamento e mandou chamar o dr. Larry Silver, um dos voluntários da clínica. Depois que o dr. Silver injetou ar em seus pulmões com uma bomba manual de borracha, Ngawang começou a respirar de novo, mas, nesse período, ficara pelo menos quatro ou cin­co minutos sem nenhum oxigênio no cérebro.

Dois dias depois, na sexta-feira, 26 de abril, o tempo finalmente melhorou o suficiente para permitir um resgate por helicóptero e Ngawang foi levado a um hospital em Katmandu, porém os médicos anunciaram que o cérebro fora gravemente lesado. Ngawang, agora, era pouco mais que um vegetal. Nas semanas seguintes, foi definhando no hospital, olhando para o teto sem o ver, os braços grudados com fir­meza ao lado do corpo, os músculos atrofiando-se, o peso caindo para menos de quarenta quilos. Em meados de junho Ngawang estaria mor­to, deixando mulher e quatro filhas em Rolwaling.

Curiosamente, a maioria dos alpinistas no Everest sabia muito menos sobre o infortúnio de Ngawang do que dezenas de milhares de pessoas que estavam muito distantes da montanha. Essa aberração devia-se à Internet e para nós, no acampamento-base, era algo absolu­tamente surrealista. Um companheiro de equipe podia ligar para casa de um telefone operado por satélite e obter informações — por exemplo, sobre o que os sul-africanos estavam fazendo no acampamento 2 — com sua mulher na Nova Zelândia, ou em Michigan, que estivesse navegando pela World Wide Web.

Havia pelo menos cinco sites da Internet publicando boletins (25) enviados por correspondentes que acompanhavam as expedições do acampamento-base. A equipe sul-africana tinha um site próprio, assim como a expedição comercial de Mal Duff. Nova, um programa de tele­visão da pbs, produziu um site muito elaborado e bastante informativo com notícias frescas enviadas todos os dias por Liesl Clark e pela emi­nente historiadora do Everest, Audrey Salkeld, que integravam a expe­dição MacGillivray Freeman imax. (Chefiada pelo premiado cineasta e experiente alpinista David Breashears, que guiara Dick Bass ao topo do Everest em 1985, a equipe da imax estava rodando um filme de 5,5 milhões de dólares a respeito da escalada da montanha.)

A expedição do próprio Scott Fischer tinha nada menos que dois correspondentes enviando material para dois sites concorrentes.

Jane Bromet, que passava boletins diários por telefone para a Outside Online, (26) era uma das correspondentes da equipe de Fischer, mas não era cliente pagante e não tinha permissão de ir além do acampa­mento-base. A outra correspondente da Internet na expedição de Fis­cher, entretanto, era uma cliente e pretendia subir até o topo, enviando boletins diários para a nbc Interactive Media no caminho. Seu nome era Sandy Hill Pittman e ninguém ali na montanha sobressaiu-se tanto ou gerou tantas fofocas quanto ela.

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