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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 60 / 128

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lideramos o tempo todo e fixamos todas as cordas, mas ela contribuiu à sua maneira, com uma atitude positiva, angarian­do dinheiro e cuidando dos meios de comunicação."

Entretanto, não faltavam difamadores para Sandy Pittman. Muita gente se ofendia com as exibições ostensivas que fazia de sua riqueza e com sua desavergonhada procura das luzes da ribalta. Como disse Joanne Kaufman, no Wall Street Journal:

Sandy Pittman é conhecida em certos círculos elevados antes como alpi­nista social do que como alpinista de montanha. Ela e Bob Pittman eram habitués de todas as noitadas certas, de todas as festas beneficentes, de todas as ocasiões, enfim, com espaço garantido nas colunas sociais. "Muitas casacas ficaram amassadas de tanto Sandy Pittman se pendurar nelas", diz um antigo parceiro de negócios de Bob Pittman, que insistiu em permanecer anônimo. "Ela está interessada em publicidade. Se tivesse de assumir a empreitada de forma anônima, duvido que estivesse esca­lando montanhas."

Justa ou injustamente, Sandy Pittman representava para seus detratores a epítome de tudo aquilo que era repreensível, inclusive a popularização dos Sete Picos provocada por Dick Bass e a conseqüen­te desvalorização das montanhas mais altas do mundo. Porém, sob a redoma do dinheiro, de uma equipe de assessores pagos e sendo uma pessoa inabalavelmente centrada em si mesma, Sandy Pittman não ligava a mínima para o ressentimento e desprezo que inspirava em outros; permanecia tão indiferente quanto a personagem Emma, de Jane Austen.

9.Acampamento 2

28 de abril de 1996

6500 m

Contamos histórias uns aos outros para poder viver. [...] Procuramos o sermão no suicídio, a lição social ou moral no assassinato múltiplo. Interpretamos o que vemos e selecionamos a mais manipulável das múltiplas escolhas. Vivemos inteiramente, em especial se formos escritores, da imposição de uma linha narra­tiva sobre imagens disparatadas e das "idéias" com as quais aprendemos a congelar as falsas aparências cambiantes, que são nossa experiência atual.

Jon Didion

The white álbum

Eu já estava desperto às quatro da madrugada, quando o alarme de meu relógio de pulso começou a tocar; estivera acordado boa parte da noite, tentando obter um pouco de oxigênio daquele ar ralo. E agora era hora de começar o temido ritual de emergir de meu casulo de penas de ganso e enfrentar o frio cortante dos 6492 metros de altitude. Dois dias antes - na sexta-feira, 26 de abril - subimos direto do acampamento-base até o acampamento 2, durante um longo dia de escalada, para começar a terceira e última excursão de aclimatação para a grande investida ao cume. Essa manhã, segundo o plano grandioso de Rob, escalaríamos do acampamento 2 até o acampamento 3 e passaríamos a noite a 7315 metros de altitude.

Rob dissera para estarmos prontos às 4h45 em ponto - dali a 45 minutos - tempo suficiente apenas para me vestir, empurrar uma bar­ra de chocolate e um pouco de chá para dentro do estômago e colocar os grampões. Focalizando a lanterna num termômetro barato preso à jaqueta que estava me servindo de travesseiro, vi que a temperatura dentro da barraca atulhada com os objetos de duas pessoas era de -21ºC. "Doug!", berrei para aquele volume enfurnado dentro do saco de dor­mir a meu lado, "está na hora de se mexer. Está acordado?"

"Acordado?", ele grasnou, com voz fatigada. "O que o leva a pen­sar que eu cheguei a dormir? Estou me sentindo um trapo. Acho que tem alguma coisa errada com minha garganta. Cara, estou ficando velho demais para esse tipo de coisa."

Durante a noite, nossas fétidas exalações haviam se condensado no tecido da barraca, formando uma frágil camada de geada interior; ao sentar para procurar minhas coisas no escuro, era impossível não bater nas paredes de náilon; toda vez que eu fazia isso, provocava uma nevas­ca dentro da barraca, cobrindo tudo com cristais de gelo. Tremendo muito, protegi o corpo com três camadas de roupas de baixo de polipro­pileno felpudo e uma quarta carapaça externa de náilon à prova de ven­to, depois calcei minhas desajeitadas botas de plástico. Amarrá-las bem firme me causava uma dor danada; nas duas últimas semanas o estado das pontas dos dedos, rachadas e sangrando, tinha piorado continua­mente com o ar frio.

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