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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 61 / 128

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Saí do acampamento quase me arrastando, bem atrás de Rob e Frank, iluminando o caminho com a luz da lanterna frontal. Fomos ser­penteando entre torres de gelo e terreno pedregoso rumo ao corpo principal do glaciar. Durante as duas horas seguintes, caminhamos por um aclive tão suave quanto uma pista de esqui para principiantes, até che­garmos no bergschrund que delineava a parte superior do glaciar do Khumbu. Logo acima, erguia-se o flanco do Lhotse, um vasto mar inclinado de gelo, reluzindo feito cromo sujo na luz enviesada do ama­nhecer. Estirada naquela vastidão gelada, como que suspensa do céu, uma única corda de nove milímetros nos chamava como o pé de feijão do conto de fadas. Apanhei a extremidade inferior dela, engatei meu jumar (27) na corda ligeiramente esgarçada e comecei a subir.

Estava sentindo um grande desconforto por causa do frio desde que saíra do acampamento, já que não me agasalhara o suficiente, ante­cipando o efeito de forno solar que já ocorrera em outras manhãs quando o sol batia em cheio no Circo Oeste. Porém, essa manhã, as rajadas cortantes de vento que vinham do alto da montanha provocaram o cha­mado "fator vento", e a temperatura talvez tivesse baixado para -40"C. Eu tinha uma malha bem grossa sobressalente na mochila, mas para colocá-la teria primeiro que tirar as luvas, a mochila e a jaqueta à pro­va de vento, tudo isso pendurado numa corda. Achei que seria bem pro­vável que derrubasse alguma coisa, portanto decidi esperar até alcan­çar um trecho do flanco que não fosse tão íngreme, onde eu poderia me equilibrar sem estar pendurado numa corda. Continuei escalando e, quanto mais subia, mais frio sentia.

O vento fazia rodopiar imensas nuvens de neve pulverizada, que escorregavam montanha abaixo como ondas espumantes, emplastran­do minhas roupas de gelo. Formou-se uma carapaça de gelo no vidro de meus óculos de alpinismo, dificultando a visão. Meus pés começaram a ficar insensíveis. Meus dedos endureceram como pau. Parecia cada vez mais inseguro continuar subindo nessas condições. Eu estava na frente da corda, a 7010 metros de altura e quinze minutos na frente do guia Mike Groom; decidi esperá-lo e discutir com ele se eu deveria seguir ou descer. Mas, pouco antes que ele me alcançasse, a voz de Rob trovejou no rádio que Mike levava dentro da jaqueta e ele parou para responder ao chamado. "Rob quer que todo mundo desça!", ele decla­rou, gritando para se fazer ouvir acima do vento. "Vamos sair daqui já!"

Era meio-dia quando chegamos de volta ao acampamento 2 e só então pudemos avaliar os estragos. Eu estava cansado mas passando bem. John Taske, o médico australiano, sofrera queimaduras leves na ponta dos dedos, provocadas pelo frio. Doug, por outro lado, estava com problemas bem mais sérios. Quando tirou as botas, descobriu que vários dedos dos pés apresentavam uma necrose incipiente. Na expedi­ção de 1995 ao Everest, ele danificara os pés com gravidade e inclusi­ve perdera parte do tecido de um dos dedões, ficando com a circulação prejudicada permanentemente. Isso o tornava muito suscetível ao frio, e essas queimaduras adicionais o deixariam ainda mais vulnerável às cruéis condições da alta montanha.

Pior ainda, contudo, foram os danos sofridos por Doug no sistema respiratório. Menos de duas semanas antes de partir para o Nepal, pas­sara por uma pequena cirurgia na garganta, ficando com a traquéia extremamente sensível. Nessa manhã, ao engolir os bocados de ar cáustico e cheio de neve, parecia ter congelado a laringe. "Estou fodi­do", Doug grasnou, num sussurro que mal se ouvia, com uma cara arra­sada. "Não consigo nem falar. Para mim a escalada acabou."

"Ainda é cedo para dizer isso", disse Rob. "Espere para ver como se sente daqui a uns dias. Você é um cara durão. Acho que ainda tem uma boa chance de chegar ao topo, depois que se recuperar." Não muito convencido, Doug voltou para nossa barraca e se cobriu até a cabeça com o saco de dormir. Era penoso vê-lo assim tão desanimado. Ele se tornara um bom amigo, partilhava sem nenhuma sovinice todo o conhecimento que obtivera durante o fracassado ataque ao pico, em 1995. Em volta do pescoço eu usava uma pedra-Xi — um amuleto budista sagrado, abençoado pelo lama do mosteiro de Pangboche — que Doug me dera no início da expedição. Eu queria que ele chegasse ao cume quase tanto quanto eu próprio queria chegar lá.

Pelo resto do dia pairou uma atmosfera chocada e meio deprimi­da por todo o acampamento. Mesmo sem ter desencadeado o seu pior ataque, a montanha nos obrigara a sair esbaforidos em busca de segu­rança. E não era apenas nossa equipe que estava de crista caída, cheia de dúvidas. O moral parecia estar baixo em várias expedições no acam­pamento 2.

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