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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 62 / 128

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O mau humor era mais óbvio ainda nas desavenças que surgiram entre Hall e os líderes das equipes taiwanesa e sul-africana a respeito da responsabilidade conjunta de estender mais de 1,5 quilômetro de cor­da, necessária à segurança da trilha no flanco do Lhotse. Por volta do final de abril, já havia uma linha de cordas fixadas entre a cabeça do Cir­co e o acampamento 3, a meio caminho do flanco. Para completar o ser­viço, Hall, Fischer, Ian Woodall, Makalu Gau e Todd Burleson (líder norte-americano da expedição comercial da Alpine Ascents) haviam concordado que no dia 26 de abril um ou dois integrantes de cada equi­pe juntariam forças para fixar o restante das cordas no flanco, na passa­gem entre o acampamento 3 e o acampamento 4, a 7924 metros de alti­tude. Mas as coisas não aconteceram conforme o planejado.

Quando Ang Dorje e Lhakpa Chhiri — da equipe de Hall -, o guia Anatoli Boukreev — da equipe de Fischer - e um sherpa da equi­pe de Burleson partiram do acampamento 2, no dia 26 de abril, os sher­pas das equipes taiwanesa e sul-africana que deveriam acompanhá-los permaneceram dentro de seus sacos de dormir e recusaram-se a coope­rar. Naquela tarde, quando Hall chegou ao acampamento 2 e ficou sabendo disso, imediatamente fez algumas chamadas por rádio para saber por que o plano não fora cumprido. Kami Dorje, o sirdar da equi­pe taiwanesa, desculpou-se profusamente e prometeu remendar a situação. Porém, quando Hall chamou Woodall pelo rádio, o impeni­tente líder da expedição sul-africana respondeu com uma enxurrada de obscenidades e xingamentos.

"Vamos conversar como duas pessoas civilizadas, companheiro", Hall implorou. "Achei que tivéssemos um acordo." Woodall retrucou que seus sherpas continuaram na barraca apenas porque ninguém apareceu para acordá-los e dizer-lhes que estavam sendo requisitados para ajudar. Hall de imediato lembrou-lhe que Ang Dorje tinha, na ver­dade, tentado diversas vezes acordá-los, mas que eles ignoraram seus chamados.

Nessa altura, Woodall declarou: "Ou você é um puta mentiroso ou seu sherpa é que é". Em seguida ameaçou mandar uns dois sherpas de sua equipe para "resolver" a questão com Ang Dorje no murro.

Dois dias depois dessa altercação desagradável, o rancor entre nossa equipe e a dos sul-africanos continuava grande. Para contribuir com a atmosfera azeda no acampamento 2, havia as notícias entrecor­tadas e preocupantes sobre o estado cada vez pior de Ngawang Topche. Como continuasse piorando cada vez mais, mesmo em baixa altitude, os médicos aventaram a possibilidade de que sua doença não fosse ape­nas hape, mas hape agravado por tuberculose ou outra doença pulmo­nar preexistente. Os sherpas, porém, tinham um diagnóstico diferente: eles acreditavam que um dos alpinistas da equipe de Fischer tinha enfu­recido o Everest — Sagarmatha, deusa do céu —, por isso a divindade se vingara em Ngawang.

O alpinista em questão começara um relacionamento com uma integrante de uma equipe que iria tentar o Lhotse. Como não existe pri­vacidade no verdadeiro cortiço que é o acampamento-base, os encontros amorosos que aconteceram na barraca dessa mulher foram devida­mente notados por outros integrantes da equipe dela, sobretudo pelos sherpas, que ficavam sentados do lado de fora, durante as sessões, apontando e zombando. "X e Y estão fazendo molho, fazendo molho", eles diziam zombeteiros, imitando o ato sexual enfiando um dedo no punho da outra mão.

Porém, apesar das risadas dos sherpas (para não falar dos notórios hábitos libertinos deles próprios), as relações sexuais entre casais não casados nos flancos divinos de Sagarmatha são vistas com desaprova­ção. Sempre que o tempo fechava, era fatal que algum sherpa apon­tasse para as nuvens acumulando-se no céu, declarando, com toda a sinceridade: "Alguém andou fazendo molho. Traz azar. Agora vem tem­pestade".

Sandy Pittman registrara essa superstição no diário que mantive­ra durante a expedição de 1994 e publicou-a na Internet em 1996:

29 de abril de 1994

Acampamento-base do Everest (5425 metros), flanco do Kangshung, Tibete

[...] um mensageiro chegara aquela tarde com cartas para todo mundo e uma revista masculina que fora enviada, de farra, por um carregador de alta montanha, conhecido meu. [...] Metade dos sherpas levou a revista para uma barraca, para examiná-la melhor, enquanto os outros comenta­vam sem parar sobre o desastre que fatalmente viria com o simples fato de folhear aquilo. A deusa Chomolungma, diziam, não tolera "jiggy-y" — nada torpe — em sua montanha sagrada.

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