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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 63 / 128

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O budismo praticado no Khumbu tem um sabor muito mais ani­mista: os sherpas veneram uma complicada mistura de divindades e espíritos que, segundo crêem, habitam os canyons, rios e picos da região. E prestar homenagem a esse conjunto de deuses é considerado de importância crucial para garantir uma passagem segura pelo relevo traiçoeiro.

Para apaziguar Sagarmatha esse ano — como em todos os anos —, os sherpas haviam construído mais de uma dúzia de belíssimos chor­tens no acampamento-base, meticulosamente erguidos com pedras, um para cada expedição. Formando um cubo perfeito de 1,50 metro de altura, o altar em nosso acampamento era encimado por três pedras pontudas escolhidas com cuidado, sobre as quais erguia-se um poste de madeira de três metros coroado por um elegante galho de junípero. Cin­co longas fileiras de bandeirolas (28) foram então penduradas obliquamen­te ao poste, por cima de nossas barracas, para proteger o acampamento. Todo dia, antes do amanhecer, o sirdar de nosso acampamento-base — um sherpa paternal, altamente respeitado, de quarenta e poucos anos, chamado Ang Tshering — acendia bastões de incenso de junípero e entoava preces ao pé do chorten; antes de partir para a cascata de gelo, ocidentais e sherpas passavam diante do altar - mantendo-o sempre do lado direito — e através das nuvens adocicadas de fumaça, para receber uma benção de Ang Tshering.

Porém, em que pese a atenção dedicada a tais rituais, o budismo praticado pelos sherpas é uma religião misericordiosa, maleável e não dogmática. Para permanecer nas boas graças de Sagarmatha, por exem­plo, nenhuma equipe podia entrar na cascata de gelo pela primeira vez sem antes passar por uma elaborada puja, uma cerimônia religiosa. Mas, quando o frágil e mirrado lama indicado para presidir a puja não pôde fazer a viagem de sua distante aldeia no dia indicado, Ang Tshe­ring declarou que não haveria problema em subirmos pela cascata de gelo, porque Sagarmatha compreendia que nossa intenção era partici­par de uma puja logo que fosse possível.

Parecia haver uma atitude igualmente indulgente no que se refe­ria à fornicação nas encostas do Everest: apesar de, da boca para fora, estarem atentos à proibição, um bocado de sherpas abria exceção para seu próprio comportamento — em 1996 houve até um romance entre um sherpa e uma americana da expedição da imax. Portanto, parecia estranho que os sherpas culpassem os encontros extraconjugais que ocorriam numa das barracas da Mountain Madness pela doença de Ngawang. Quando comentei essa incongruência com Lopsang Jangbu - o sirdar de alta montanha de Fischer —, ele disse, contudo, que o problema não era que um dos alpinistas de Fischer estivesse "fazendo molho" no acampamento-base, e sim que continuasse a dormir com a amante na alta montanha.

"O monte Everest é Deus — meu e de todo mundo", Lopsang filo­sofou solenemente, dez semanas após a expedição. "Só marido e mulher dormem juntos, isso é bom. Mas, quando X e Y dormem juntos, é azar para minha equipe. [...] Por isso eu digo para Scott: Por favor, Scott, você é líder. Por favor diz a X para não dormir com namorada no acampamento 2. Por favor. Mas Scott só ri. No primeiro dia X e Y na barraca, logo depois Ngawang Topche doente no acampamento 2. Por isso ele agora está morto."

Ngawang era tio de Lopsang; os dois eram muito chegados e Lopsang participara do grupo de resgate que descera com Ngawang pela cascata de gelo, na noite de 22 de abril. Depois, quando Ngawang parou de respirar em Pheriche e teve que ser transportado para Katmandu, Lopsang desceu às pressas do acampamento-base (incentivado por Fis­cher), a tempo de acompanhar o tio na viagem de helicóptero. Sua rápi­da viagem a Katmandu e a volta apressada ao acampamento-base o dei­xaram muito fatigado e relativamente pouco aclimatado - o que não era um bom augúrio para a equipe de Fischer, que dependia dele pelo menos tanto quanto Hall dependia de seu sirdar de alta montanha, Ang Dorje.

Muitos alpinistas experientes estavam presentes no lado nepalês do Everest, em 1996 - veteranos como Hall, Fischer, Breashears, Pete Schoening, Ang Dorje, Mike Groom e Robert Schauer, um austríaco da equipe da imax. Porém, quatro luminares destacavam-se mesmo em companhia tão eminente — alpinistas que demonstraram uma habili­dade tão espantosa acima dos 7900 metros que formavam uma liga só sua: Ed Viesturs, o americano que estrelava o filme da imax; Anatoli Boukreev, um guia do Cazaquistão que trabalhava para Fischer; Ang Babu Sherpa, contratado da expedição sul-africana, e Lopsang.

Gregário e bem-apanhado, gentil até demais, Lopsang era bas­tante petulante e, no entanto,

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