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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 64 / 128

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imensamente simpático. Criado na região de Rolwaling, filho único, Lopsang não fumava nem bebia, o que não é comum entre os sherpas. Possuía um incisivo de ouro e riso fácil. Em­bora tivesse a ossatura miúda e fosse baixinho, seus modos exibidos, seu apetite por trabalho pesado e dons atléticos extraordinários lhe valeram a reputação de ser o Deion Sanders do Khumbu. Fischer certa vez me disse que achava que Lopsang tinha potencial para se tornar "a segunda reencarnação de Reinhold Messner" - o famoso tirolês que, de longe, é o maior alpinista do Himalaia de todos os tempos.

Lopsang despertou atenção pela primeira vez aos vinte anos de idade, quando foi contratado como carregador por uma expedição con­junta de indianos e nepaleses ao Everest, liderada por uma indiana, Bachendri Pal, e composta em grande parte de alpinistas mulheres. Sendo o mais jovem da equipe, Lopsang a princípio foi relegado a um papel de apoio, mas sua força era tão impressionante que, no último minuto, foi designado para participar do ataque ao topo e, em 16 de maio, chegou ao cume sem oxigênio suplementar.

Cinco meses depois da escalada do Everest, Lopsang atingiu o cume do Cho Oyu com uma equipe japonesa. Na primavera de 1994, trabalhou para Fischer na Expedição Ambientalista de Sagarmatha e atingiu pela segunda vez o topo do Everest, sem oxigênio engarrafado. Em setembro do mesmo ano estava tentando a crista oeste do Everest com uma equipe norueguesa quando foi atingido por uma avalanche; após despencar sessenta metros montanha abaixo, conseguiu parar a queda com uma picareta de gelo, salvando assim sua vida e a de dois companheiros de corda. Porém, Mingma Norbu, tio de Lopsang, não estava amarrado aos outros e acabou morrendo. Embora o fato o tenha abalado bastante, Lopsang não perdeu seu ardor pela montanha.

Em maio de 1995, chegou ao cume do Everest pela terceira vez sem usar oxigênio, nessa ocasião como contratado da expedição de Hall, e três meses depois escalou os 8046 metros do Broad Peak, no Paquistão, trabalhando para Fischer. Quando Lopsang voltou ao Everest com Fischer, em 1996, tinha apenas três anos de alpinismo, mas nesse período participara de nada mais, nada menos que dez expedi­ções ao Himalaia, obtendo uma reputação tão boa quanto a de qualquer alpinista de alto calibre.

Escalando juntos o Everest em 1994, Fischer e Lopsang passaram a sentir grande admiração mútua. Ambos tinham uma energia inesgo­tável, um charme irresistível e um dom para fazer as mulheres balança­rem. Tendo Fischer como mentor e modelo, Lopsang começou inclusive a usar rabo-de-cavalo, como Fischer. "Scott é cara muito forte eu sou cara muito forte", Lopsang explicou-me com sua característica falta de modéstia. "A gente bom time. Scott não paga tão bem quanto Rob os japoneses, mas eu não tem necessidade de dinheiro; estou olhan­do futuro e Scott é meu futuro. Ele diz para mim: 'Lopsang, meu sher­pa forte! Eu vou fazer você famoso!' [...] Acho que Scott tem muito plano grande para mim na Mountain Madness."

10. Flanco do Lhotse

29 de abril de 1996

7100 m

O público norte-americano não tinha nenhuma simpatia ineren­te pelo alpinismo, ao contrário dos britânicos, que inventaram esse esporte, e dos países alpinos europeus. Nesses países havia algo próximo à compreensão e, ainda que o homem comum pudesse considerá-lo um risco irresponsável, admitia que era algo que precisava ser feito. Não havia tal aceitação nos Estados Unidos.

Walt Unsworth Everest

Um dia depois que nossa primeira tentativa de atingir o acampa­mento 3 foi abortada pelo vento e por um frio bárbaro, todo mundo da equipe de Hall, exceto Doug (que permaneceu no acampamento 2 para que sua laringe se restabelecesse), fez uma outra tentativa. Trezentos e quatro metros acima do imenso aclive do flanco do Lhotse, comecei a subir por uma corda de náilon desbotada que parecia não ter mais fim e, quanto mais alto eu ia, mais eu parecia me arrastar. Engatei meu juntar na corda fixa com a mão enluvada, descansei meu peso no dis­positivo para dar duas respiradas difíceis, que me queimaram por den­tro; em seguida levantei um pé, finquei o grampão no gelo e suguei desesperado mais duas talagadas de ar; plantei o pé direito ao lado do esquerdo, inalei e exalei lá do fundo do peito, inalei e exalei de novo; e tornei a deslizar o jumar um pouco mais para cima. Fazia três horas que eu vinha fazendo um esforço tremendo, e esperava ter que continuar nisso por pelo menos mais uma hora, antes de parar para descansar. E foi assim, desse modo agoniado, avançando aos centímetros, que prossegui rumo a um aglomerado de barracas que supostamente estariam empoleiradas mais acima,

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