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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 65 / 128

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em algum lugar do flanco íngreme.

As pessoas que não praticam o alpinismo — vale dizer, a grande maioria da humanidade - costumam achar que esse é um esporte irres­ponsável, que se trata de uma busca dionisíaca de todas as emoções que uma escalada possa fornecer. Porém essa noção de que o alpinista não passa de um viciado em adrenalina, sempre à cata de uma dose legíti­ma da droga, é uma mentira, pelo menos no caso do Everest. O que eu estava fazendo lá em cima não tinha nada em comum com pular de bun­gee, saltar em queda livre de um pára-quedas ou andar de motocicleta a 190 quilômetros por hora.

Acima dos confortos do acampamento-base, a expedição tornou-se na verdade uma empreitada quase calvinista. O coeficiente de abor­recimentos, em relação ao prazer, era de uma magnitude infinitamente maior do que qualquer outra montanha que eu tivesse escalado; logo percebi que escalar o Everest dizia respeito sobretudo à capacidade de suportar dor. E, o modo como nos submetíamos àquela tarefa, ao tédio e aos sofrimentos, semana após semana, fez-me pensar que a maioria de nós estava procurando, acima de tudo, algo assim como um estado de graça.

É claro que para uma infinidade de alpinistas do Everest há mui­tos outros motivos menos virtuosos em jogo: momentos de celebrida­de, progresso na carreira, massagem no ego, direito a gozações, lucro sujo. Mas atrativos assim ignóbeis eram um fato bem menos atuante do que poderiam supor muitos críticos. Na realidade, o que observei no decorrer das semanas obrigou-me a rever de modo substancial minhas pressuposições em relação a alguns colegas.

É o caso de Beck Weathers, por exemplo, que nesse momento parecia ser uma minúscula pintinha vermelha no gelo, 150 metros abai­xo, quase no final de uma longa fila de alpinistas. Minha primeira impressão sobre Beck não fora favorável: um patologista de Dallas, chegado a dar tapinhas nas costas dos outros, com habilidades alpinas aquém do medíocre, à primeira vista ele me pareceu um republicano rico e fanfarrão querendo comprar o cume do Everest para sua estante de troféus. Entretanto, à medida que o conhecia, meu respeito por ele foi aumentando. Embora suas botas novas e rígidas tivessem lhe tritu­rado os pés, Beck continuou avançando, todos os dias, raramente mencionando a dor, que deve ter sido tremenda. Ele era resistente, motiva­do, estóico. E aquilo que no início eu tomara por arrogância estava me parecendo cada vez mais exuberância. O sujeito não parecia nutrir res­sentimento algum contra ninguém neste mundo (fora Hillary Clinton). A alegria e o otimismo ilimitado de Beck eram tão cativantes que aca­bei gostando dele um bocado.

Filho de um oficial da Força Aérea, Beck passara a infância pulan­do de uma base militar para outra antes de aterrissar em Wichita Falls para cursar a faculdade. Formou-se em medicina, casou-se, teve dois filhos e instalou-se confortavelmente numa clínica bastante lucrativa em Dallas. Aí, em 1986, já beirando os quarenta, tirou umas férias no Colorado, ouviu o canto das sereias soprando das alturas e inscreveu-se num curso rudimentar de alpinismo no Parque Nacional das Mon­tanhas Rochosas.

Não é incomum que médicos se tornem caçadores crônicos de grandes feitos; Beck não era o primeiro a extrapolar com um novo hob­by. Mas o alpinismo é diferente do golfe, do tênis e de vários outros passatempos que consomem as energias de seus pares. As exigências do alpinismo — as batalhas físicas e emocionais, os perigos reais — tor­nam esse esporte algo mais que um jogo. Escalar é como a vida, só que moldada em relevo mais nítido, e até então nada fascinara Beck a esse ponto. Sua mulher, Peach, começou a ficar cada vez mais preocupada com sua dedicação e com o fato de que aquele esporte roubava da famí­lia a presença do pai e marido. Não ficou nada satisfeita quando, não muito tempo após se iniciar no esporte, Beck anunciou sua decisão de tentar os Sete Picos.

Por mais egoísta e grandiosa que pudesse ter sido a obsessão de Beck, não era uma frivolidade. Comecei também a detectar uma serie­dade de propósitos semelhante em Lou Kasischke, o advogado de Bloomfield Hills; em Yasuko Namba, a calada japonesa que comia macarrão toda manhã, como desjejum; e em John Taske, o médico anestesista de 56 anos de Brisbane, que começara a escalar montanhas depois de se aposentar do exército.

"Quando deixei a farda, fiquei meio perdido", Taske contou, la­mentando a própria sorte num carregado sotaque australiano. Ele fora um alto oficial do Exército — coronel respeitadíssimo no Serviço Aéreo Especial, o equivalente australiano dos comandos boina-verde americanos e britânicos. Tendo servido por duas vezes no Vietnã, no auge da guerra descobriu, com tristeza, que não estava preparado para

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