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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 66 / 128

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o estirão monótono de vida que ainda havia pela frente, sem a farda. "Descobri que eu realmente não conseguia conversar com civis", con­tinuou. "Meu casamento veio abaixo. Tudo o que conseguia ver era esse túnel escuro e comprido se fechando, terminando em doença, velhice e morte. Aí comecei a escalar e o esporte me deu grande parte do que esta­va me faltando na vida civil — o desafio, a camaradagem, o sentido de

missão."

À medida que minha simpatia por Taske, Weathers e alguns outros colegas aumentava, fui me sentindo cada vez mais desconfortável em meu papel de jornalista. Eu não tinha nenhum remorso na hora de escre­ver com franqueza a respeito de Hall, Fischer ou de Sandy Pittman, já que todos vinham buscando, agressivamente, as atenções dos meios de comunicação havia anos. Porém, meus companheiros pagantes eram uma outra história. Quando se alistaram na expedição de Hall, nenhum deles sabia que haveria um repórter junto — rabiscando o tempo todo, registrando em silêncio todas as suas palavras e feitos com o objetivo de partilhar suas fraquezas com um público potencialmente desprovi­do de qualquer simpatia por eles.

Depois que a expedição terminou, Weathers foi entrevistado no programa de televisão Turning Point. Num trecho da entrevista que não foi incluído na versão editada para transmissão, o âncora do noticiário da abc, Forrest Sawyer, perguntou a Beck: "Como se sentiu tendo um repórter a seu lado?". Beck respondeu:

Aumentou ainda mais o estresse. Eu estava sempre um pouco preocupa­do com isso — sabe como é, esse cara vai voltar e escrever uma história que será lida por alguns milhões de pessoas. E, quer dizer, já é ruim o bas­tante ir até lá e fazer papel de bobo quando é só você e o grupo escalan­do. Mas que alguém nos coloque no meio das páginas de uma revista como um bufão, um palhaço, isso acaba mexendo com a psique, no sen­tido de como você se sai, do tanto que se esforça. Preocupava-me que a presença dele levasse as pessoas a ir mais longe do que desejavam. Até com os guias. Quer dizer, eles querem levar o pessoal até o topo da mon­tanha porque, de novo, alguém vai escrever sobre eles e julgá-los.

Momentos depois Sawyer perguntou: "Você acha que ter um repórter na equipe pôs uma pressão maior sobre Rob Hall?". Beck res­pondeu:

Desconfio que sim. Isso é o que [Rob] faz na vida; se um dos clientes se machucar, é o pior que pode acontecer a um guia. [...] Sem dúvida ele ti­nha tido uma temporada ótima dois anos antes, quando conseguiu levar todo mundo até o cume, o que é extraordinário. Na verdade eu acho que ele considerava o nosso grupo forte o bastante para repetir a façanha. [...] Portanto, acho que há um incentivo, de modo que quando você aparecer no noticiário de novo, na revista, tudo será dito de modo favorável.

A manhã já ia alta quando enfim cheguei ao acampamento 3: um trio de pequenas barracas amarelas, a meio caminho da vastidão verti­ginosa do flanco do Lhotse, empilhadas lado a lado numa plataforma escavada por nossos sherpas na encosta gelada. Quando cheguei, Lhak­pa Chhiri e Arita ainda estavam dando duro para abrir um pouco mais a plataforma e acomodar uma quarta barraca, de modo que tirei a mochi­la e ajudei-os a cavar. A 7315 metros de altitude, eu conseguia dar no máximo uns sete ou oito golpes com o piolet antes de ser obrigado a parar por mais de um minuto para recuperar o fôlego. Minha contribui­ção à tarefa foi mínima, nem é preciso dizer, e foi preciso mais de uma hora para completar o serviço.

Nosso minúsculo acampamento, que ficava trinta metros acima das barracas de outras expedições, era um verdadeiro poleiro, espeta­cularmente exposto. Havíamos passado semanas cruzando com dificuldade o que, no fim das contas, vinha a ser uma garganta; agora, pela primeira vez, a vista era composta mais de céu que de terra. Rebanhos de cúmulos rechonchudos corriam abaixo do sol, imprimindo na paisa­gem um matiz cambiante de sombras e luz ofuscante. Enquanto espe­rava meus companheiros, sentei com os pés pendurados no abismo, olhando para baixo, para picos de 6700 metros de altura que, um mês antes, erguiam-se portentosos acima de mim. Finalmente parecia que eu estava me aproximando do teto do mundo.

O cume, porém, ainda estava a 1500 metros verticais dali, envol­to num nimbo de condensação provocada por vendavais. Porém, ainda que o topo da montanha estivesse sendo fustigado por ventos com velo­cidade superior a 160 quilômetros por hora, o ar no acampamento 3 mal se mexia, e, à medida que a tarde foi avançando, comecei a me sentir cada vez mais zonzo devido à feroz radiação solar — pelo menos esta­va torcendo para que fosse isso, que fosse o calor o responsável por estar me

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