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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 67 / 128

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sentindo aparvalhado, e não o princípio de um edema cerebral.

O hace, ou High Altitude Cerebral Edema [Edema Cerebral de Grande Altitude], é menos comum que o hape, o edema pulmonar pro­vocado por altitudes extremas, mas costuma ser ainda mais perigoso. Sendo uma doença que ainda confunde os cientistas, o hace ocorre quando os vasos sangüíneos do cérebro, com falta de oxigênio, come­çam a vazar líquido, o que provoca uma inchação pronunciada do cére­bro e pode surgir com pouco ou nenhum aviso. À medida que a pres­são vai aumentando dentro do crânio, as funções motoras e mentais se deterioram com uma velocidade alarmante — em geral dentro de algu­mas horas, ou menos ainda —, sem que a vítima sequer perceba que houve alguma mudança. O passo seguinte é o coma e, depois, a menos que a pessoa afetada seja evacuada depressa para uma altitude menor, a morte.

Eu estava pensando no edema cerebral aquela tarde porque, dois dias antes, um dos clientes de Fischer chamado Dale Kruse, um dentis­ta de 44 anos do Colorado, desenvolvera um quadro perigoso de hace bem ali, no acampamento 3. Amigo havia tempos de Fischer, Kruse era um alpinista vigoroso e experiente. No dia 26 de abril, ele subira do acampamento 2 até o acampamento 3, fizera um pouco de chá para si e para os colegas, e em seguida deitara na barraca para tirar uma soneca. "Caí no sono imediatamente", Kruse contou depois, "e acabei dormin­do quase 24 horas, até mais ou menos as duas da tarde do dia seguinte. Quando alguém finalmente foi me acordar, os outros colegas percebe­ram na hora que minha cabeça não estava funcionando, se bem que para mim estivesse tudo normal. Scott me disse: 'Temos que levar você para baixo agora'."

Kruse estava tendo uma dificuldade imensa só para tentar se ves­tir. Ele pôs sua cadeirinha do avesso, enfiou-a pela braguilha do macacão à prova de vento e não afivelou; por sorte, Fischer e Neal Beidleman perceberam a confusão antes que Kruse começasse a descer. "Se ele tivesse tentado descer engatado nas cordas fixas daquele jeito", diz Beidleman, "teria se soltado na hora da cadeirinha e caído lá no fundo do flanco do Lhotse."

"Foi como se eu estivesse muito bêbado", Kruse explicou mais tarde. "Eu não conseguia andar sem tropeçar e perdi completamente a capacidade de pensar ou falar. Foi uma sensação muito estranha mes­mo. As palavras me passavam pela cabeça, mas não conseguia imagi­nar como levá-las até a boca. Scott e Neal tiveram que me vestir e se cer­tificar de que a cadeirinha estava colocada do jeito certo, aí Scott me baixou pelas cordas fixas." Quando Kruse chegou ao acampamento-base, diz ele, "demorou ainda uns três ou quatro dias até que eu conse­guisse andar da barraca até o refeitório sem tropeçar em tudo".

Assim que o sol do fim de tarde se escondeu por trás do Pumori, a temperatura no acampamento 3 despencou; quando o ar esfriou, con­segui enfim me acalmar: não precisava preocupar-me com um ataque de hace, pelo menos não por enquanto. Na manhã seguinte, depois de uma noite miserável a 7315 metros, descemos para o acampamento 2 e, um dia depois, no 1º de maio, continuamos a descer até o acampa­mento-base para recuperar as forças depois da investida rumo ao cume.

Nossa aclimatação estava agora oficialmente encerrada — e, para minha agradável surpresa, a estratégia de Hall parecia estar funcionan­do. Após três semanas na montanha, eu achei o ar no acampamento-base denso, rico; o oxigênio parecia voluptuoso, em comparação à bru­tal atmosfera rarefeita dos acampamentos avançados.

Mas nem tudo estava bem com meu corpo. Eu perdera cerca de dez quilos de massa muscular, em grande parte nos ombros, costas e per­nas. Também queimara quase toda minha gordura subcutânea, tornan­do-me muito mais sensível ao frio. O pior de tudo, entretanto, era o peito: a tossinha seca que começara semanas antes, em Lobuje, tinha piorado tanto que rompi algumas cartilagens torácicas durante um ata­que especialmente intenso de tosse, no acampamento 3. A tosse não

cedeu; a cada acesso eu sentia como se estivessem me dando um pon­tapé nas costelas.

Grande parte dos outros alpinistas no acampamento-base também estava em frangalhos — isso fazia parte da vida no Everest. Dentro de cinco dias os integrantes das equipes de Hall e Fischer estariam deixan­do o acampamento-base rumo ao topo. Na esperança de estancar mi­nha derrocada física, resolvi descansar, tomar Ibuprofen, um remédio antiinflamatório e analgésico, e empurrar quantas calorias conseguis­se goela abaixo, naquele meio tempo.

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