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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 68 / 128

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Desde o começo Hall planejara que o dia 10 de maio seria nosso. "Das quatro vezes em que cheguei ao cume", explicou ele, "duas foram no dia 10 de maio. Como diriam os sherpas, o dez é um número 'auspi­cioso' para mim." Porém, havia um motivo mais prosaico para escolher essa data: o fluxo anual dos ventos de monção indicava que o tempo mais favorável do ano para a escalada cairia próximo ou no próprio 10 de maio.

Durante todo o mês de abril o jet stream estivera apontado para o Everest como uma mangueira de bombeiro, castigando a pirâmide do topo com vendavais de grande intensidade. Mesmo nos dias em que, em volta do acampamento-base, tudo era calma e sol, havia uma imensa faixa de neve sendo constantemente soprada em direção ao pico pelas rajadas de vento. Mas no princípio de maio, esperávamos, a aproxima­ção da monção vinda do golfo de Bengala forçaria o jet stream a se des­locar para o norte, para o Tibete. Se esse ano o padrão dos anos anterio­res se repetisse, entre a partida do vento e a chegada das tempestades de monção teríamos um breve intervalo de tempo claro e calmo, durante o qual seria possível atacar o cume.

Infelizmente, o padrão anual do tempo não era nenhum segredo, e todas as expedições pretendiam aproveitar essa mesma brecha de tem­po bom. Na esperança de evitar um perigoso congestionamento na cris­ta do cume, Hall armou um enorme conselho de guerra com os líderes das outras expedições presentes no acampamento-base. Ficou determi­nado que Gõran Kropp, um jovem sueco que fora de bicicleta da Sué­cia até o Nepal, faria a primeira tentativa, sozinho, em 3 de maio. Em seguida seria a vez da equipe de Montenegro. Depois, no dia 8 ou 9, subiria a expedição da imax.

A equipe de Hall, conforme ficou decidido, dividiria a data de 10 de maio com a expedição de Fischer. Depois de quase morrer sob uma rocha que despencou do flanco sudoeste, Petter Neby, o alpinista norueguês solitário, fora embora: numa bela manhã deixara em silên­cio o acampamento-base e voltara para a Escandinávia. Um grupo lide­rado pelos norte-americanos Todd Burleson e Pete Athans, a expedição de Mal Duff e uma outra equipe comercial britânica prometeram dei­xar a trilha livre no dia 10, assim como os taiwaneses. Ian Woodall, entretanto, declarou que os sul-africanos subiriam até o topo no dia que lhes desse na telha, talvez no dia 10 de maio, e se alguém estivesse insa­tisfeito que fosse pentear macacos.

Hall, em geral extremamente lento para se irritar, ficou possesso quando soube que Woodall se recusara a cooperar. "Eu quero estar bem longe do topo da montanha quando aqueles imbecis chegarem por lá", reclamou furioso.

11. ACAMPAMENTO-BASE

6 DE MAIO DE 1996

5400 M

Em que medida o apelo do alpinismo residirá em simplificar os relacionamentos, em reduzir amizades a uma interação sem per­calços (como na guerra), em substituir os próprios relaciona­mentos pelo Outro (a montanha, o desafio)? Atrás da mística de aventura, resistência, vagabundagem errante antídotos muito necessários aos confortos e conveniências embutidos em nossa cultura —, talvez haja uma recusa adolescente de levar a sério o envelhecimento, a fragilidade dos outros, as responsabilidades interpessoais, as fraquezas de todo tipo, o lento e modesto curso da própria vida. [...]

[G]randes alpinistas [...] podem se comover profundamente, de modo até piegas, com a morte, mas só com a de ex-camaradas corajosos. Uma certa frieza, incrivelmente semelhante em seu tom, emerge dos escritos de Buhl, John Harlin, Bonatti, Boning­ton e Haston: a frieza da competência. Talvez o alpinismo extremo seja justamente isso: atingir um determinado ponto onde, nas palavras de Haston, "se alguma coisa der errado, será uma luta de vida ou morte. Se seu treinamento for bom o bastante, a sobrevivên­cia estará ao alcance; se não, a natureza reivindicará vitória ".

David Roberts

"Patey Agonistes", in Moments of doubt

Saímos do acampamento-base às 4h30 do dia 6 de maio para começar nosso ataque ao cume. O topo do Everest, verticalmente 3200 metros acima, parecia impossível de tão distante, de modo que tentei limitar meus pensamentos ao acampamento 2, nosso destino para aque­le dia. Quando os primeiros raios de sol atingiram o glaciar, eu estava a uma altitude de 6 mil metros, nas entranhas do Circo Oeste, grato por ter deixado a cascata de gelo para trás e pelo fato de que só teria que atra­vessá-la mais uma única vez, na viagem final de descida.

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