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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 69 / 128

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Eu havia sido castigado pelo calor em todas as travessias do Circo e essa não foi exceção. Subindo com Andy Harris à frente do grupo, enchia o boné de neve o tempo todo e caminhava o mais rápido que me permitiam minhas pernas e pulmões, na esperança de alcançar a som­bra das barracas antes de sucumbir à radiação solar. Com o avanço da manhã e o sol batendo em cheio, minha cabeça começou a dar martela­das. Minha língua inchou de tal forma que era difícil respirar pela boca, e reparei que estava cada vez mais complicado pensar com clareza.

Andy e eu chegamos ao acampamento 2 às 10h30, esgotados. Depois de engolir dois litros de Gatorade, meu equilíbrio voltou. "É uma sensação boa estar finalmente a caminho do cume, não é mesmo?", Andy perguntou. Ele tivera uma série de problemas intestinais, durante boa parte da expedição, e estava começando agora a recuperar as forças. Professor excelente, dotado de uma paciência espantosa, durante as semanas anteriores fora sempre designado para acompanhar os clientes mais lentos, na rabeira do grupo; nessa manhã estava muito satisfeito que Rob o tivesse liberado para ir na frente. Como guia júnior na equipe de Rob Hall, e o único que nunca tinha estado no Everest, Andy estava ansioso para provar a seus experimentados colegas que também era um dos bons. "Estou achando que a gente vai conseguir liquidar com esse grandalhão", ele me assegurou, com um sorriso de orelha a orelha, olhando para o cume.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Gõran Kropp, o sueco de 29 anos que iria escalar o pico sozinho, passou pelo acampamento 2 a caminho da base, exausto. No dia 16 de outubro de 1995, ele partira de Estocolmo numa bicicleta feita especialmente para ele, com 109 quilos de bagagem, com a intenção de viajar da Suécia, ao nível do mar, até o topo do Everest. Completamente só, sem apoio dos sherpas nem oxigênio artificial. Era um objetivo de extrema ambição, mas Kropp tinha cre­denciais para tanto: já participara de seis outras expedições ao Himalaia e escalara sozinho o Broad Peak, o Cho Oyu e o K2.

Durante os quase 13 mil quilômetros de viagem até Katmandu, fora assaltado por escolares romenos e atacado por uma multidão no Paquistão. No Irã, um motoqueiro furioso quebrara um taco de beisebol na cabeça (felizmente protegida por capacete) de Kropp. Apesar de tudo, conseguiu chegar intacto ao sopé do Everest no início de abril, com uma equipe de cinema atrás, e começou imediatamente a fazer excursões de aclimatação até a baixa montanha. Então, numa quarta-feira, 1º de maio, partiu do acampamento-base rumo ao topo.

Kropp chegou a seu acampamento avançado, a 7925 metros de altura, no colo sul, na tarde de quinta-feira, e partiu rumo ao cume no dia seguinte, logo depois da meia-noite. Todo mundo no acampamen­to-base ficou junto aos rádios durante o dia inteiro, esperando com ansiedade por notícias de seu progresso. Helen Wilton pendurara uma faixa em nosso refeitório com os dizeres: "Vai, Göran, vai!".

Pela primeira vez em vários meses, não havia ventania no cume, mas a camada de neve na alta montanha estava muito funda, o que tor­nava o avanço lento e exaustivo. Kropp, porém, enveredou montanha acima, em meio à neve profunda acumulada pelos ventos, e por volta das duas da tarde da quinta-feira chegou a 8747 metros de altura, logo abaixo do cume sul. Entretanto, ainda que o cume estivesse no máximo sessenta minutos acima, ele decidiu dar meia-volta, consciente de que estaria cansado demais para descer em segurança se fosse adiante.

"Voltar assim tão perto do cume...", Hall comentou, sacudindo a cabeça, quando Kropp passou pelo acampamento 2 ao descer a monta­nha, no dia 6 de maio. "Isso demonstra um bom senso extraordinário da parte do jovem Gõran. Estou muito impressionado — muito mais, aliás, do que teria ficado se ele tivesse continuado escalando até o topo." Durante todo o mês anterior, Rob insistira inúmeras vezes conosco sobre a importância de ter uma hora predeterminada de regresso no dia em que fôssemos atacar o cume -  no nosso caso, provavelmente às 13h00 ou, no máximo, às 14h00 - e de obedecer esse horário sem levar em conta o quão próximos estivéssemos do cume. "Se tiver determi­nação, qualquer idiota consegue subir esse morro", Hall comentou. "O grande problema é descer de lá vivo."

O semblante tranqüilo de Hall mascarava um desejo intenso de ser bem-sucedido — coisa que ele definia em termos bastante simples, ou seja, levar tantos clientes quantos fosse possível até o cume. Para garan­tir tal sucesso, ele prestava uma atenção minuciosa aos detalhes: na saúde dos sherpas, na eficiência de seu sistema gerador de energia solar, no estado de conservação dos grampões dos

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