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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 70 / 128

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clientes. Hall adora­va ser guia e sentia-se magoado porque alguns alpinistas célebres__

inclusive, mas não somente sir Edmund Hillary - não avaliavam como era difícil guiar nem tinham pela profissão o respeito que ela merecia.

Rob decretou que terça-feira, 7 de maio, seria um dia de descan­so, de modo que levantamos tarde e ficamos perambulando pelo acam­pamento 2, fervendo de ansiedade com o iminente ataque final ao cume. Revisei meus grampões e alguns outros equipamentos, depois tentei ler um livro de bolso de Carl Hiaasen, mas estava tão ligado na escalada que lia as mesmas frases várias vezes sem conseguir registrar uma palavra.

Acabei largando o livro, tirei algumas fotos de Doug posando com uma bandeira que a garotada da escola de Kent lhe pedira para carregar até o pico e arranquei dele mais algumas informações detalhadas sobre as dificuldades da pirâmide do cume, da qual ele se lembrava muito bem, do ano anterior. "Quando chegarmos finalmente no topo", ele disse, franzindo o cenho, "garanto que você não vai estar se sentindo nada bem." Doug estava decidido a participar do ataque ao cume, embora ainda estivesse com a garganta ruim e com as forças muito aba­ladas. Como ele mesmo disse: "Eu pus muito de mim mesmo nessa montanha para largar agora, sem antes dar tudo de mim".

Já no final da tarde, Fischer passou por nosso acampamento, de maxilares cerrados, andando muito devagar - o que era bastante inco­mum — em direção ao ponto onde estavam suas barracas. Em geral ele conseguia manter uma atitude inabalavelmente positiva; uma de suas frases favoritas era: "Se você der moleza, não vai chegar lá em cima, de modo que, já que estamos por aqui, o melhor é curtir". No momento, porém, Scott não parecia estar curtindo nem um pouco; na verdade parecia nervoso e muito cansado.

Como ele incentivara seus clientes a subir e descer a montanha à vontade, durante o período de aclimatação, acabou tendo de fazer inúmeras escaladas apressadas e não planejadas entre o acampamento-base e os acampamentos avançados para acudir os clientes que tiveram algum problema e precisaram de escolta na descida. Ele já fizera via­gens especiais para acudir Tim Madsen, Pete Schoening e Dale Kruse. E agora, durante o que deveria ter sido um precioso e necessário dia de descanso, Fischer fora forçado a fazer uma apressada viagem do acam­pamento 2 até o acampamento-base e tornar a subir, para ajudar seu amigo Kruse, que fora acometido pelo que parecia ser uma recaída de HACE.

Fischer chegara ao acampamento 2 logo depois de Andy e de mim, por volta do meio-dia da segunda-feira, tendo saído do acampamento-base muito antes de seus clientes; dera instruções ao guia Anatoli Boukreev para ir na rabeira da fila e ficar bem perto do grupo, de olho em todo mundo. Porém Boukreev ignorou as instruções de Fischer: em vez de subir com o grupo, dormiu até mais tarde, tomou um banho e par­tiu do acampamento-base cerca de cinco horas depois dos últimos clientes. Assim, quando Kruse desmaiou, aos 6096 metros, com uma dor de cabeça alucinante, Boukreev não estava por perto, obrigando Fischer e Beidleman a partirem às pressas do acampamento 2 para cui­dar da emergência tão logo a notícia do estado de Kruse chegou até eles, levada por alpinistas que vinham subindo o Circo Oeste.

Não muito depois de alcançar Kruse e começar a complicada des­cida até o acampamento-base, Fischer cruzou com Boukreev no topo da cascata de gelo, subindo sozinho, e criticou-o com toda a severida­de por ter fugido a suas responsabilidades. "É", Kruse contou depois, "Scott caiu de pau em cima de Toli. Quis saber por que estava tão atrás de todo mundo — por que não estava escalando com o grupo."

Segundo Kruse e outros clientes de Fischer, a tensão entre Fischer e Boukreev foi aumentando gradativamente durante a expedição. Fis­cher pagou 25 mil dólares a Boukreev — um salário generoso demais para um guia do Everest (a maioria dos outros guias de alta montanha recebia entre 10 e 15 mil dólares; os alpinistas sherpas experimentados recebiam apenas de 1400 a 2500 dólares). "Toli era muito forte e tinha uma técnica muito boa", explicou Kruse, "mas não tinha muito traque­jo social. Ele não cuidava dos outros. Simplesmente não era homem de atuar em grupo. Inclusive eu já tinha dito a Fischer que não queria ter que escalar com Toli na alta montanha, porque tinha certeza de que não poderia contar com ele quando de fato fosse preciso."

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