X hits on this document

Word document

o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 71 / 128

517 views

0 shares

1 downloads

0 comments

71 / 128

O grande problema é que a idéia que Boukreev fazia de suas res­ponsabilidades diferia, e muito, do que Fischer pensava. Como russo, Boukreev vinha de uma cultura alpinista durona, orgulhosa e muito esforçada, que não acreditava em paparicar os fracos. Na Europa orien­tal os guias eram treinados para agir mais como os sherpas — transpor­tando cargas, fixando cordas, estabelecendo trilhas — do que como tutores. Alto, loiro, com feições eslávicas atraentes, Boukreev era um dos melhores alpinistas de alta montanha do mundo, com vinte anos de experiência no Himalaia, inclusive duas subidas ao Everest sem oxigê­nio suplementar. E, no decurso de sua prestigiosa carreira, formulara uma série de opiniões muito firmes e pouco ortodoxas sobre como a montanha devia ser escalada. Falava abertamente que, no seu entender, era um grande erro dos guias mimar seus clientes. "Se o cliente não con­segue escalar o Everest sem uma grande ajuda do guia", Boukreev me declarou, "esse cliente não devia estar no Everest. Senão dá problema sério lá em cima."

Porém, a recusa ou incapacidade de Boukreev em desempenhar o papel tradicional do guia, no estilo ocidental, irritou Fischer. Também fez com que ele e Beidleman arcassem com um volume desproporcio­nal das responsabilidades perante o grupo. Por volta da primeira sema­na de maio, o esforço exagerado tinha, é claro, pesado na saúde de Fis­cher. Após chegar ao acampamento-base na noite de 6 de maio, acompanhando Kruse, ainda bem doente, Fischer fez dois telefonemas via satélite para Seattle, nos quais queixou-se amargamente à sua sócia, Karen Dickson, e à sua agente publicitária, Jane Bromet, (29) da intransi­gência de Boukreev. Nenhuma das duas imaginou que essa fosse a últi­ma conversa que teriam com Fischer.

Em 8 de maio as equipes de Hall e de Fischer partiram do acam­pamento 2 e deram início à excruciante subida pelas cordas fixas no flanco do Lhotse. Logo abaixo do acampamento 3, 609 metros acima do Circo Oeste, uma pedra do tamanho de um televisor pequeno desa­bou dos penhascos e bateu bem no peito de Andy Harris. Ele perdeu completamente o equilíbrio, ficou sem fala e permaneceu pendurado na corda fixa, em estado de choque, por vários minutos. Caso não esti­vesse preso à corda com um jumar, com certeza teria caído e morrido.

Quando chegamos às barracas, Andy parecia abalado demais, porém disse que não estava ferido. "Talvez amanhã de manhã eu esteja com o corpo meio duro", insistiu, "mas acho que a maldita pegou só de raspão." Pouco antes que a pedra caísse em cima dele, Andy estava encurvado, com a cabeça baixa; por acaso ele levantou a cabeça segun­dos antes de a pedra bater, de modo que ela apenas raspou seu queixo antes de atingi-lo no esterno; foi por um triz que ela não lhe esmagou a cabeça. "Se aquela pedra tivesse me atingido na cabeça...", Andy comentou com uma careta, enquanto tirava a mochila, deixando o resto da frase em aberto.

Como o acampamento 3 fosse o único, em toda a montanha, que não compartilhávamos com os sherpas (a plataforma era estreita demais para acomodar barracas para todos), nós mesmos é que tínha­mos que preparar nossa comida — que na verdade significava, em grande medida, derreter quantidades fabulosas de neve para beber. Devido à desidratação pronunciada, uma das conseqüências inevitá­veis de respirar aquele ar ressecado, cada um de nós consumia mais de três litros de líquido por dia. Portanto, precisávamos produzir cerca de quarenta litros diários de água para atender às necessidades de oito clientes e três guias.

Tendo sido a primeira pessoa a chegar às barracas em 8 de maio, coube a mim a tarefa de picador de gelo. Durante três horas, enquanto meus companheiros iam pingando no acampamento e se acomodando nos sacos de dormir, eu permaneci a céu aberto cavando a encosta com a ajuda de meu piolet, enchendo sacos de lixo com lascas congeladas e distribuindo o gelo pelas barracas, para ser derretido. A 7315 metros, era uma tarefa estafante. Cada vez que um dos colegas berrava: "Ei, Jon! Você ainda está aí fora? A gente estava querendo um pouco mais de gelo aqui!", eu ia tendo uma visão bem mais clara do quanto os sher­pas faziam todos os dias por nós e o quão pouco apreciávamos esse tra­balho.

Já perto do final da tarde, quando o sol começou a perder a força por trás do horizonte enrugado e a temperatura caiu sensivelmente, todos já haviam chegado ao acampamento, exceto Lou Kasischke, Frank Fischbeck e Rob, que se oferecera para fazer a "varredura" e subir por último. Por volta das 16h30, o guia Mike Groom recebeu um cha­mado de Rob pelo walkie-talkie: Lou e Frank ainda estavam a uns ses­senta metros das barracas e movendo-se muito devagar; será que Mike poderia fazer o favor de descer e ajudá-los? Mais que depressa Mike pôs de volta os grampões e desapareceu pelas cordas

Document info
Document views517
Page views645
Page last viewedThu Dec 08 04:36:27 UTC 2016
Pages128
Paragraphs1519
Words87495

Comments