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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 72 / 128

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fixas sem reclamar.

Passou-se mais de uma hora até que ele reaparecesse, bem à fren­te dos outros. Lou, que estava tão cansado que deixara sua mochila para Rob carregar, cambaleou até o acampamento, pálido, perturbadíssimo, resmungando: "Estou acabado, acabado. Completamente esgotado". Frank apareceu alguns minutos depois, com um aspecto ainda mais exausto, embora tivesse se recusado a passar a mochila para Mike. Foi um choque ver esses caras — que nos últimos dias andavam escalando tão bem — num estado daqueles. O aparente declínio de Frank, em especial, foi um murro na cara: eu presumira, desde o início, que, se algumas pessoas do grupo fossem chegar até o topo, Frank — que já estivera três vezes na alta montanha e parecia tão escolado e forte — seria uma delas.

Quando a escuridão invadiu o acampamento, nossos guias distri­buíram garrafas de oxigênio, reguladores e máscaras para todo mundo: dali em diante iríamos fazer a escalada respirando oxigênio artificial.

Subir com a ajuda de oxigênio engarrafado é uma prática que já desencadeou muitos debates azedos, isso desde que os britânicos leva­ram pela primeira vez um suprimento experimental de oxigênio para o Everest, em 1921. (Os sherpas, muito céticos, logo apelidaram os desa­jeitados aparelhos de "ar inglês".) A princípio, o crítico mais acerbo do oxigênio engarrafado foi George Leigh Mallory, que costumava dizer que usá-lo não era "um comportamento esportivo e, portanto, ia contra

o espírito britânico". Mas logo se tornou evidente que na chamada zona da morte, acima dos 7600 metros, sem o oxigênio suplementar o orga­nismo fica muito mais vulnerável a edemas pulmonar e cerebral, hipo­termia, queimaduras, necroses e mais uma infinidade de outros perigos mortais. Em 1924, quando voltou para sua terceira expedição ao Eve­rest, Mallory já se convencera de que o cume jamais seria atingido sem oxigênio suplementar e conformou-se em usá-lo.

Experiências conduzidas em câmaras de descompressão já haviam demonstrado, àquela altura, que um ser humano saído do nível do mar e despejado no topo do Everest, onde o ar contém apenas um terço de oxigênio, perderia a consciência em poucos minutos e morre­ria logo depois. Porém, vários alpinistas idealistas continuaram insis­tindo que um bom atleta, dotado de raros atributos físicos, conseguiria, depois de um longo período de aclimatação, escalar o pico sem o uso de oxigênio engarrafado. Os puristas inclusive levaram essa linha de raciocínio às suas últimas conseqüências e diziam que usar oxigênio artificial era trapaça.

Nos anos 70, o famoso alpinista tirolês Reinhold Messner surgiu como o principal proponente da escalada sem oxigênio suplementar, declarando que ou escalava o Everest "da forma correta" ou não esca­lava, e pronto. Pouco depois disso, ele e seu velho parceiro, o austríaco Peter Habeler, surpreenderam a comunidade internacional de alpinis­tas cumprindo a promessa: às 13h00 do dia 8 de maio de 1978 eles che­garam ao cume pela trilha do colo sul e da crista sudeste sem usar oxi­gênio suplementar. O feito foi saudado em alguns círculos de alpinistas como a primeira verdadeira escalada do Everest.

A histórica façanha de Messner e Habeler não foi, porém, recebi­da com salvas em todos os quadrantes, sobretudo entre os sherpas. A maioria deles simplesmente se recusou a acreditar que um ocidental fosse capaz de um feito que nunca fora realizado nem mesmo pelo mais forte dos sherpas. Não faltaram especulações de que Messner e Habeler haviam respirado oxigênio de garrafas em miniatura escondidas nas roupas. Tenzing Norgay e outros sherpas eminentes assinaram uma Petição exigindo que o governo nepalês realizasse um inquérito oficial sobre a suposta escalada.

Contudo, as evidências sustentando a escalada sem oxigênio suplementar eram irrefutáveis. Além do mais, dois anos depois Mess­ner calou a boca de todos aqueles que tinham dúvidas viajando até o lado tibetano do Everest e fazendo outra escalada sem oxigênio - dessa vez inteiramente só, sem o apoio de sherpas nem de ninguém. Quando chegou ao topo, às 15h00 do dia 20 de agosto de 1980, em meio a nuvens pesadas e nevasca, Messner disse: "Eu me sentia em agonia constante; nunca na vida me senti tão cansado". Em The crystal hori­zon, seu livro sobre a escalada, ele descreve os metros finais até o topo:

Quando descanso sinto-me sem vida, exceto que minha garganta queima quando respiro. [...] Mal posso prosseguir. Não há desespero, não há feli­cidade, não há ansiedade. Não é que eu tenha perdido o domínio de minhas sensações, na verdade, não há mais sensação nenhuma. Eu sou apenas força de vontade. Após alguns poucos metros, também isso se dis­solve num cansaço sem fim. Aí não penso

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