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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 73 / 128

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nada. Deixo-me cair e fico ali, estirado. Por um tempo indefinido permaneço completamente irresolu­to. Depois dou mais alguns passos outra vez.

Após o retorno de Messner à civilização, sua subida foi saudada como a maior façanha do alpinismo de todos os tempos.

Depois que Messner e Habeler provaram que era possível subir o Everest sem oxigênio suplementar, uma série de alpinistas ambiciosos concordou que ele devia ser escalado sem oxigênio engarrafado. Dali em diante, para todos aqueles que aspiravam integrar a elite do Himalaia, abrir mão da garrafa de oxigênio era obrigatório. Até 1996, cerca de sessenta homens e mulheres já haviam chegado ao cume sem ele — sendo que cinco não voltaram para contar a história.

Por mais grandiosas que pudessem ser algumas das ambições pes­soais de nosso grupo, ninguém na equipe de Hall chegou a cogitar na possibilidade de atacar o cume sem garrafas de oxigênio. Inclusive Mike Groom, que escalara o Everest três anos antes sem oxigênio suplementar. Segundo explicou-me, pretendia usá-lo dessa vez porque estava trabalhando como guia e tinha plena consciência, por experiên­cia própria, de que sem oxigênio engarrafado ele ficaria tão limitado -— mental e fisicamente — que não conseguiria cumprir seus deveres pro­fissionais. Assim como a maioria dos veteranos do Everest, Groom acredita que, embora seja aceitável — e preferível do ponto de vista estético — passar sem oxigênio engarrafado quando se escala por con­ta própria, seria uma tremenda irresponsabilidade guiar um grupo até o cume sem usá-lo.

O equipamento de ponta utilizado por Hall, de fabricação russa, era composto por uma máscara de plástico rígido, do tipo usado por pilotos de guerra de aviões MiG, durante a guerra do Vietnã, conectada através de um tubo de borracha e de um tosco regulador a um cilindro laranja, de aço e Kevlar, uma fibra sintética. (Menores e muito mais leves que um tanque de mergulho, cada cilindro pesava três quilos quando cheio.) Embora não tivéssemos dormido com oxigênio artifi­cial durante a passagem anterior pelo acampamento 3, agora que iría­mos começar nosso ataque ao cume, Rob nos aconselhara a usar a más­cara durante a noite inteira. "Cada minuto que passamos nesta altitude e mais para cima", ele avisou, "representa uma certa deterioração do corpo e da mente." As células do cérebro estavam morrendo. Nosso sangue estava se tornando perigosamente grosso e lamacento. Os capi­lares sangüíneos em nossas retinas estavam tendo hemorragias espon­tâneas. Mesmo quando estávamos inativos, nossos corações batiam num ritmo furioso. Rob prometeu que "o oxigênio engarrafado retardaria o declínio e nos ajudaria a dormir".

Tentei seguir o conselho de Rob, mas a minha claustrofobia laten­te acabou levando a melhor. Assim que ajustei a máscara sobre o nariz e a boca, comecei a imaginar que aquilo estava me sufocando, de maneira que após uma hora de martírio eu a tirei e passei o resto da noite sem oxigênio suplementar, sufocando, virando de lá para cá no saco de dormir, conferindo o relógio a cada vinte minutos para ver se já era hora de levantar.

Encravadas numa encosta, trinta metros abaixo de nosso acampa­mento, num local igualmente precário, estavam as barracas da maioria das outras equipes — inclusive a de Scott Fischer, a dos sul-africanos e a dos taiwaneses. Bem cedo na manhã seguinte — 9 de maio, quinta-feira —, enquanto eu calçava as botas para a subida até o acampamen­to 4, Chen Yu-Nan, um metalúrgico de 36 anos, de Taipei, saiu de sua barraca calçado apenas com o forro de sola lisa das botas de alpinismo - um sério erro de julgamento.

Ao agachar, perdeu o equilíbrio no gelo e despencou pelo flanco do Lhotse. Por um desses acasos inacreditáveis, após cair apenas 21 metros, enterrou-se de cabeça numa greta, o que interrompeu a queda. Sherpas que tinham visto o incidente baixaram uma corda, puxaram-no depressa da fenda e o ajudaram a voltar para a barraca. Embora estives­se abalado e muito assustado, não parecia muito ferido. Na época, nin­guém na equipe de Hall, inclusive eu, tomou conhecimento do que ti­nha ocorrido.

Logo depois disso, Makalu Gau e o restante da equipe deixaram Chen sozinho na barraca, para se recuperar, e partiram para o colo sul. Mesmo tendo garantido a Rob e Scott que não iria tentar chegar ao cume no dia 10 de maio, parecia ter mudado de idéia e agora pretendia chegar ao cume no mesmo dia em que nós.

Naquela tarde, um sherpa chamado Jangbu, a caminho do acam­pamento 2 depois de ter transportado

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