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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 74 / 128

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uma carga até o colo sul, parou no acampamento 3 para monitorar o estado de Chen e descobriu que os sintomas do alpinista taiwanês haviam piorado de maneira significati­va: estava desorientado e sentindo dores agudas. Convencido de que ele precisava ser transferido, Jangbu recrutou dois outros sherpas e se pôs a escoltá-lo pelo flanco do Lhotse. Cerca de noventa metros antes do fim da encosta de gelo, Chen de repente começou a inclinar-se e perdeu a consciência. Momentos depois, no acampamento 2, o rádio de David Breashears deu sinal de vida: era Jangbu, em pânico, dizendo que Chen parara de respirar.

Breashears e seu colega da imax, Ed Viesturs, apressaram-se a subir e ver se poderiam reavivá-lo, mas quando chegaram ao local onde Chen caíra, uns quarenta minutos depois, não encontraram mais nenhum sinal vital. Naquela noite, depois que Gau chegou ao colo sul, Breashears chamou-o por rádio. "Makalu", disse Breashears ao líder do grupo de Taiwan, "o Chen morreu."

"Certo", Gau respondeu. "Obrigado pela informação." Em segui­da garantiu ao grupo que a morte de Chen não afetaria em hipótese alguma os planos de partir rumo ao cume à meia-noite. Breashears ficou chocadíssimo. "Eu tinha acabado de fechar os olhos do amigo dele em seu lugar", ele conta, com uma indisfarçável pitada de raiva. "Eu tinha acabado de arrastar o corpo de Chen para baixo. E tudo que Makalu soube me dizer foi: 'Certo'. Sei lá, vai ver é alguma coisa cul­tural. Talvez tenha achado que a melhor forma de honrar a morte de Chen era continuar com a expedição."

Nas seis semanas anteriores já tinha havido uma série de aciden­tes sérios: a queda de Tenzing numa greta antes mesmo de termos che­gado ao acampamento-base; o edema pulmonar de Ngawang Topche e a subseqüente deterioração de seu estado; um alpinista inglês jovem e aparentemente em forma, da equipe de Mal Duff, chamado Ginge Fullen, tivera um sério ataque cardíaco perto do topo da cascata de gelo; um dinamarquês chamado Kim Sejberg, também da equipe de Mal, fora atingido por um serac na cascata de gelo e quebrara várias coste­las. Só que até aquele momento ninguém tinha morrido, ainda.

A morte de Chen espalhou uma nuvem escura sobre a montanha, à medida que os rumores do acidente iam sendo divulgados de barraca em barraca, porém 33 alpinistas estariam partindo rumo ao cume dali a pou­cas horas e o desalento foi rapidamente substituído pela antecipação ner­vosa do que teríamos pela frente. A grande maioria estava tomada demais pela "febre do cume" para entrar em reflexões ponderadas sobre a morte de um de nós. Haveria muito tempo para reflexão depois, achávamos todos, depois que tivéssemos chegado ao topo e descido de volta.

12. Acampamento 3

9 de maio de 1996

7300 m

Olhei para baixo. A descida não apetecia nem um pouco. [...] Tan­to esforço despendido, tantas noites insones, tantos sonhos para chegarmos assim tão longe. Não poderíamos regressar no fim de semana seguinte para uma nova tentativa. Descer naquele momento, ainda que tivéssemos podido, teria sido como descer rumo a um futuro marcado por uma imensa indagação: como teria sido?

Thomas F. Horbein

Everest: The west ridge

Levantei-me num estado letárgico, zonzo, após uma noite inteira sem dormir no acampamento 3, por isso demorei bastante para me ves­tir, derreter gelo para fazer água e sair da barraca, na manhã do dia 9 de maio. Até que tivesse feito a mochila e colocado os grampões, quase todos do grupo de Hall já estavam subindo pelas cordas, rumo ao acam­pamento 4. Surpreendentemente, Lou Kasischke e Frank Fischbeck estavam entre eles. Devido ao estado deplorável em que chegaram ao acampamento, na noite anterior, eu imaginara que optariam por jogar a toalha. Impressionado com o fato de terem se aprumado e decidido continuar, gritei para os dois: "Good on ya, mates!", tomando empres­tado uma frase de incentivo, mais ou menos equivalente a "é isso aí, meus chapas", do contingente neozelandês.

Quando me apressei para me juntar aos colegas, olhei para baixo e vi uma fila de mais ou menos cinqüenta alpinistas de outras expedições subindo também; os primeiros já estavam logo abaixo de mim. Como não ti­nha a menor intenção de me enrascar no que com certeza viraria um tre­mendo congestionamento de trânsito (o que prolongaria ainda mais a desa­gradável sensação de estar intermitentemente sob uma saraivada de pedras despencando lá de cima, entre outros perigos),

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