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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 75 / 128

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apressei o passo e resolvi passar para a frente da fila. Como só houvesse uma corda serpenteando pelo flanco do Lhotse, não era fácil ultrapassar os alpinistas mais lentos.

O encontro de Andy com aquela rocha me vinha à mente toda vez que eu me desengatava da corda fixa para ultrapassar alguém - até mes­mo um pequeno projétil seria suficiente para me mandar lá para o fundo do flanco, caso me pegasse solto, sem corda. Além disso brincar de eixo­badeixo lá em cima era não só uma prova de nervos, mas também algo muito exaustivo. Feito um calhambeque tentando passar uma fila de car­ros numa ladeira íngreme, eu tinha de pisar fundo no acelerador, durante muito tempo, para conseguir ultrapassar alguém, o que me deixava por demais ofegante e com medo de vomitar dentro da máscara de oxigênio.

Como era a primeira vez na vida que eu escalava com oxigênio suplementar, levei um bom tempo para me acostumar. Embora os bene­fícios de usar oxigênio artificial nessa altitude — 7315 metros — fos­sem genuínos, não era muito fácil percebê-los de imediato. Quando tentei desesperadamente recuperar o fôlego, depois de ultrapassar três alpinistas, a máscara parecia estar me asfixiando, de modo que a arran­quei do rosto — e foi aí que descobri que, sem ela, ficava ainda mais difícil respirar.

Na altura em que transpus o penhasco de calcário amarelado e quebradiço, chamado Franja Amarela, eu já tinha conseguido alcançar a dianteira da fila e pude então seguir num ritmo mais confortável. A passo lento, porém constante, fiz uma travessia ascendente, à esquerda do topo do flanco do Lhotse, em seguida escalei uma ponta de xisto negro esmigalhado chamado esporão de Genebra. Enfim pegara o jeito, estava respirando normalmente com a máscara e tinha uma hora de dianteira sobre meu companheiro mais próximo. Solidão é um bem muito raro no Everest e me senti grato pela chance de aproveitar um Pouco sozinho daquele dia, em cenário tão esplendoroso.

A 7894 metros parei na crista do esporão para tomar um pouco de água e apreciar a vista. O ar rarefeito tinha uma qualidade cintilante, cristalina, que fazia até mesmo os picos mais distantes parecerem próximos, tão próximos que a impressão é que se poderia tocá-los. Ilumi­nada pelo sol do meio-dia, a pirâmide do topo do Everest aparecia, extravagante, em meio a um véu intermitente de nuvens. Ao espiar pela teleobjetiva de minha máquina para a parte superior da crista sudeste, fiquei surpreso ao ver quatro figurinhas que pareciam formigas subin­do a passos imperceptíveis rumo ao cume sul. Deduzi que deviam ser alpinistas da expedição montenegrina; se conseguissem chegar lá, seriam a primeira equipe a escalar o cume do Everest esse ano. Além disso, significaria que os boatos que andávamos ouvindo sobre cama­das de neve de espessuras impossíveis de atravessar também não tinham fundamento — se eles "fizessem" o cume, talvez também nós conseguíssemos "fazê-lo". Porém, o tufo de neve, sendo soprado da crista do cume, era um mau sinal: os montenegrinos estavam subindo com grande dificuldade, em meio a um vendaval feroz.

Cheguei ao colo sul, nossa plataforma de lançamento rumo ao topo, às 13h00. O colo sul, um desolado platô de gelo duro e rochedos varridos por rajadas de vento, a 7925 metros de altitude, ocupa um am­plo chanfro entre as encostas superiores do Lhotse e do Everest. De for­ma mais ou menos retangular, com uns cem metros de comprimento e uns cinqüenta de largura, o colo sul despenca 2133 metros pela face do Kangshung até o Tibete, na margem oriental; o outro lado mergulha 1219 metros até o Circo Oeste. Pouco aquém da borda desse abismo, na beirada ocidental do colo, estavam as barracas do acampamento 4, espalhadas sobre um trecho de chão nu, rodeadas por mais de mil cilin­dros usados de oxigênio. (30) Caso haja um lugar de moradia mais desola­do e inóspito neste mundo, espero de coração jamais visitá-lo.

Quando o jet stream, que são ventos fortíssimos, encontra o maci­ço do Everest e espreme-se pelos contornos em forma de V do colo sul, o vento acelera e atinge velocidades inimagináveis; muitas vezes os ventos do colo sul são ainda mais fortes que as rajadas que castigam o cume. Por causa desse furacão quase constante que sopra pelo colo, no início da primavera, o terreno ali permanece de rocha nua e gelo, mes­mo quando há densas camadas de neve nas encostas adjacentes: tudo que não tiver congelado e petrificado, naquele lugar, é varrido na dire­ção do Tibete.

Quando entrei no acampamento 4, seis sherpas estavam batalhan­do para erguer as barracas de Hall sob uma tempestade de cinqüenta nós. Ajudei-os a montar meu abrigo e ancorei a barraca com alguns cilindros velhos de oxigênio e as maiores pedras que consegui erguer, depois enterrei-me lá dentro para esperar os companheiros e aquecer as mãos enregeladas.

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