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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 76 / 128

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O tempo piorou no decorrer da tarde. Lopsang Jangbu, o sirdar de Fischer, apareceu, trazendo uma carga pesadíssima, de uns quarenta quilos, sendo que quinze eram do telefone via satélite e periféricos: Sandy Pittman pretendia enviar boletins via Internet a 7925 metros de altitude. O último integrante de minha equipe chegou por volta das 16h30 e os retardatários do grupo de Fischer mais tarde ainda, no auge de uma tempestade violenta. Ao escurecer, os montenegrinos regressa­ram ao colo sul e contaram que o cume continuava fora de alcance: vol­taram quando estavam pouco abaixo do escalão Hillary.

Tanto o tempo quanto a derrota dos montenegrinos pareciam um mau sinal para nosso ataque ao cume, programado para começar em menos de seis horas. Todo mundo se recolheu em sua barraca de náilon assim que chegou ao colo sul e fez o possível para cochilar um pouco, mas o barulho de metralhadora das barracas açoitadas pelo vento e a ansiedade diante do que estava por vir fazia do sono algo inatingível para a maioria de nós.

Stuart Hutchison - o jovem cardiologista canadense - e eu fica­mos na mesma barraca; Rob, Frank, Mike Groom, John Taske e Yasuko Namba ficaram em outra; Lou, Beck Weathers, Andy Harris e Doug Hansen ocuparam a terceira. Lou e seus companheiros tiravam uma soneca no abrigo, quando uma voz desconhecida chamou do lado de fora, em meio ao vendaval, dizendo: "Deixe-o entrar rápido, senão vai morrer aqui fora!". Lou abriu o zíper da porta e, momentos depois, um homem barbudo caiu inerte em seus braços. Era Bruce Herrod, o amá­vel vice-líder da equipe sul-africana e o único que sobrara daquele grupo com credenciais verdadeiras de alpinista.

"Bruce estava em sérios apuros", Lou contou depois, "tremendo sem parar, agindo de modo totalmente aluado, irracional, incapaz de fazer qualquer coisa por si mesmo. A hipotermia era tão forte que mal conseguia falar. O restante do grupo, aparentemente, estava em algum ponto do colo sul, ou a caminho do colo sul. Só que ele não sabia em que ponto e não tinha idéia de onde estaria sua própria barraca, de modo que lhe demos alguma coisa para beber e tentamos aquecê-lo."

Doug também não estava indo muito bem. "Doug não estava com bom aspecto", Beck relembra. "Estava se queixando de que não dormia há uns dois dias e que também não tinha comido nada. Mas estava deci­dido a botar o equipamento e subir, quando chegasse a hora. Eu fiquei preocupado porque, àquela altura, já o conhecia bem e percebi que Doug passara o ano anterior inteirinho se torturando com o fato de ter chegado a noventa metros do cume e ter sido obrigado a voltar. Sério, isso o atazanava todo santo dia. Estava muito claro que não aceitaria que o pico lhe fosse negado uma segunda vez. Doug ia continuar subin­do rumo ao topo enquanto ainda conseguisse respirar."

Havia mais de cinqüenta pessoas acampadas no colo sul aquela noite, amontoadas em barracas montadas lado a lado, e no entanto havia uma estranha sensação de isolamento pairando no ar. O rugido do vento impossibilitava qualquer comunicação entre uma barraca e ou­tra. Nesse lugar esquecido por Deus, senti-me desconectado dos com­panheiros - emocional, espiritual e fisicamente - num grau que jamais experimentara em expedições anteriores. Éramos uma equipe apenas no nome, acabei percebendo, com tristeza. Embora estivésse­mos a poucas horas de deixar o acampamento como um grupo, subiría­mos como indivíduos, sem corda nem nenhum senso de lealdade que nos unisse. Ali era cada cliente por si, ou quase. E eu não era exceção: sinceramente esperava que Doug conseguisse chegar ao topo, por exemplo, no entanto faria tudo a meu alcance para continuar subindo se por acaso ele desse meia-volta.

Em outro contexto qualquer essa constatação teria sido deprimen­te, mas eu estava preocupado demais com o tempo para me aprofundar na questão. Se o vento não amainasse - e logo - o cume estaria fora de cogitação para todos nós. Durante a semana anterior, os sherpas de Hall haviam estocado 55 cilindros de oxigênio engarrafado no colo sul. Embora pareça um exagero, era suficiente apenas para uma única ten­tativa de três guias, oito clientes e quatro sherpas. E o medidor estava correndo: mesmo recostados na barraca, estávamos consumindo o pre­cioso gás. Se fosse preciso, poderíamos desligar o oxigênio e permane­cer ali, em segurança, por 24 horas; depois disso, entretanto, teríamos que subir ou descer.

Todavia, mirabile visu, às 19h30 o vendaval parou de repente. Bruce Herrod engatinhou para fora da

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