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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 77 / 128

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barraca de Lou e saiu trôpego à procura dos colegas. A temperatura estava bem abaixo de zero, mas não havia vento quase nenhum: condição excelente para escalar até o topo. O instinto de Hall era extraordinário: parecia que ele havia marcado com exatidão a data de nossa tentativa. "Jon! Stuart!", ele berrou da bar­raca vizinha. "Parece que vai ser hoje mesmo, pessoal. Estejam pron­tos às onze e meia!"

Enquanto tomávamos chá e aprontávamos o equipamento para a escalada, ninguém falou muito. Todos nós tínhamos sofrido um bocado para chegarmos a esse momento. Assim como Doug, eu comera muito pouco e não dormira nada desde a saída do acampamento 2, dois dias antes. Toda vez que eu tossia, a dor por causa das cartilagens torácicas rompidas era igual a estar sendo esfaqueado nas costas, provocando inclusive lágrimas. Entretanto, se eu queria chegar até o topo, sabia que não tinha outra escolha senão ignorar minhas enfermidades e escalar.

Às 23h35, ajustei a máscara de oxigênio, liguei minha lanterna frontal e comecei a subir pela escuridão. Éramos quinze pessoas no grupo de Hall: três guias, todos os oito clientes e os sherpas Ang Dorje, Lhakpa Chhiri, Ngawang Norbu e Kami. Hall dera instruções a dois outros sherpas - Arita e Chuldum - para que permanecessem nas barracas, prontos para se mobilizarem em caso de problemas.

A equipe da Mountain Madness - composta pelos guias Fischer, Beidleman e Boukreev, por seis sherpas e pelos clientes Charlotte Fox, Tim Madsen, Klev Schoening, Sandy Pittman, Lene Gammelgaard e Martin Adams - saiu do colo sul meia hora depois de nós. (31) Lopsang sugerira que apenas cinco dos sherpas da Mountain Madness acompa­nhassem a escalada ao topo, deixando dois deles no colo sul, como equipe de apoio, mas, como ele disse: "Scott é coração aberto, diz para meus sherpas 'todos podem subir'". No fim, Lopsang ordenou, pelas costas de Fischer, que um de seus sherpas, seu primo Pemba, ficasse no colo. "Pemba furioso para mim", Lopsang admitiu, "mas eu diz para ele, 'você fica ou não tem mais emprego meu'. Aí ele fica no acampa­mento 4."

Saindo do acampamento logo atrás do grupo de Fischer, Makalu Gau partiu com dois sherpas - ignorando abertamente a promessa fei­ta de que os taiwaneses não tentariam escalar o pico na mesma data que nós. Os sul-africanos também pretendiam partir naquele dia, porém a tenebrosa subida do acampamento 3 até o colo sul os deixara em tal estado que nem sequer puseram a cabeça para fora das barracas.

Tudo somado, 33 alpinistas partiram rumo ao cume no meio daquela noite. Embora tivéssemos saído do colo sul como integrantes de três expedições distintas, nossos destinos estavam começando a se emaranhar - e ficariam cada vez mais ligados a cada metro que subís­semos.

A noite tinha uma beleza fria, fantasmagórica, que foi se intensi­ficando pouco a pouco. No céu congelado havia mais estrelas do que eu j amais vira na vida. A lua, quase cheia, aparecia acima dos 8480 metros do Makalu, inundando a encosta sob minhas botas com uma luz espec­tral que eliminava a necessidade da lanterna frontal. Mais a sudeste, ao longo da fronteira entre a Índia e o Nepal, massas colossais de cúmu­los-nimbos pairavam sobre os pântanos infestados de malária do Terai, clareando o céu com explosões surrealistas de relâmpagos alaranjados e azuis.

Três horas depois de termos partido do colo sul, Frank achou que alguma coisa naquele dia não estava indo bem. Saindo da fila, deu meia-volta e desceu para as barracas. Sua quarta tentativa de escalar o Everest terminara.

Pouco depois disso, Doug também saiu fora da fila. "Ele estava um pouco à frente de mim, na hora", lembra-se Lou. "De repente, ele saiu da fila e ficou ali parado. Quando eu o alcancei, disse-me que esta­va com frio, sentindo-se mal e que ia descer." Aí Rob, que estava na tra­seira, alcançou Doug e houve uma conversa rápida entre os dois. Ninguém escutou o que disseram, de modo que não há como saber o que falaram, mas a conseqüência foi que Doug voltou para a fila e con­tinuou a subida.

No dia anterior à partida do acampamento-base, Rob reunira todos nós no refeitório e fizera uma preleção sobre a importância de obedecer às suas ordens no dia do ataque ao cume. "Não vou tolerar nenhuma desavença lá em cima", advertiu, olhando direto para mim. "Minha palavra será lei absoluta e não adianta apelar. Se alguém não gostar de uma determinada decisão que eu tenha tomado, terei a maior satisfação em discuti-la depois, mas não enquanto estivermos subindo para o cume."

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