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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 78 / 128

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A causa mais óbvia de qualquer conflito que pudesse haver era a possibilidade de Rob decidir voltar antes que atingíssemos o cume. Porém, havia uma outra questão que o preocupava em especial. Durante os últimos estágios de aclimatação, ele soltara ligeiramente as rédeas para que subíssemos em nosso próprio ritmo - por exemplo, Hall às vezes me permitia viajar duas ou mais horas na frente do grupo principal. Agora, entretanto, fazia questão de frisar que durante a pri­meira metade do ataque deveríamos escalar todos juntos. "Até chegar­mos ao topo da crista sudeste", Rob determinou, referindo-se a uma plataforma a 8412 metros de altitude, chamada Balcony, "todo mundo tem que caminhar a uma distância de no máximo cem metros do com­panheiro. Isso é muito importante. Estaremos escalando no escuro e quero os guias de olho em vocês o tempo todo".

E foi assim que, subindo nas primeiras horas da madrugada do dia 10 de maio, nós que estávamos na frente da fila éramos obrigados a parar constantemente e esperar, num frio insuportável, até que os com­panheiros mais lentos nos alcançassem. Numa dessas ocasiões, Mike Groom, o sirdar Ang Dorje e eu sentamo-nos numa beirada coberta de neve por mais de quarenta minutos, tremendo e batendo os pés e as mãos para evitar o congelamento, à espera de que os outros chegassem. Mas o tempo perdido era ainda mais difícil de agüentar que o frio.

Às 3h45, Mike anunciou que tínhamos avançado demais e que pre­cisávamos parar mais uma vez e esperar. Espremendo o corpo de encon­tro a um afloramento xistoso, tentando escapar da brisa abaixo de zero que soprava do oeste, olhei para o declive escarpado e tentei identificar os alpinistas que vinham morosamente subindo à luz da lua. À medida que avançavam, vi que alguns integrantes do grupo de Fischer já haviam alcançado nosso grupo: a equipe de Hall, a equipe da Mountain Mad­ness e os taiwaneses estavam agora misturados numa fila comprida e intermitente. Foi aí que uma coisa estranha me chamou a atenção.

Uns dezenove metros abaixo, uma silhueta alta, trajada com cal­ças e jaqueta amarelo-canário, estava amarrada às costas de um sherpa de estatura bem menor por uma corda de noventa centímetros; o sher­pa, que não usava máscara de oxigênio, bufando alto, estava arrastan­do o parceiro encosta acima como um cavalo puxando a charrua. O estranho par estava ultrapassando os outros e progredindo bem, porém o arranjo - uma técnica para auxiliar um alpinista enfraquecido ou ferido, chamada repesar - parecia ser tanto perigoso quanto descon­fortável para ambas as partes. Aos poucos, fui reconhecendo os dois: o sherpa era o extrovertido sirdar (de Fischer, Lopsang Jangbu, e o alpi­nista de amarelo era Sandy Pittman.

O guia Neal Beidleman, que também viu Lopsang guinchando Sandy Pittman montanha acima, contou: "Quando subi, vindo logo atrás, Lopsang estava debruçado na encosta, agarrado à rocha feito uma aranha, sustentando Sandy numa corda mais curta. A mim me pareceu desa­jeitado e bem perigoso. Não sabia muito bem o que pensar da situação".

Por volta das 4h15, Mike nos deu sinal verde para reiniciar a subi­da e Ang Dorje e eu começamos a escalar o mais depressa possível, para nos aquecermos. Quando os primeiros sinais de luz iluminaram o leste do horizonte, o terreno rochoso e terraceado que estávamos subindo deu lugar a uma ampla vala de neve fofa. Revezando-nos para abrir uma trilha por aquela neve que nos chegava até as canelas, Ang Dorje e eu chegamos ao topo da crista sudeste às 5h30, bem quando o sol come­çou a aparecer no céu. Três dos cinco picos mais altos do mundo desta­cavam-se em áspero relevo de encontro aos tons pastel da alvorada. Meu altímetro registrava 8412 metros de altitude.

Hall deixara bem claro que eu não deveria subir mais nem um pas­so até que todo o grupo estivesse reunido nesse poleiro em forma de sacada; então me sentei sobre a mochila e esperei. Quando Rob e Beck finalmente chegaram, fechando a fila, eu estava ali sentando há mais de noventa minutos. Enquanto esperava, tanto o grupo de Fischer como o dos taiwaneses passaram por mim. Sentia-me frustrado por estar des­perdiçando tanto tempo e irritado por estar sendo passado para trás por todo mundo. Mas entendia os motivos de Hall, de modo que guardei minha raiva muito bem guardada.

Durante meus 34 anos de alpinismo, descobrira que os aspectos mais gratificantes do esporte são justamente a ênfase na autoconfiança, as tomadas de decisões críticas, o lidar sozinho com as conseqüências, a responsabilidade pessoal. Quando você sai como cliente, conforme fui percebendo, é obrigado a abrir mão disso tudo e mais. Em nome da segurança, um guia responsável insistirá sempre

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