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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 79 / 128

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em ter a última pala­vra - ele ou ela simplesmente não podem se dar ao luxo de deixar que os clientes tomem sozinhos decisões importantes.

Portanto, a passividade por parte dos clientes fora incentivada durante toda a expedição. Os sherpas abriam a rota, montavam os acampamentos, cozinhavam, transportavam a carga. Isso conservava nossa energia e aumentava bastante as nossas chances de chegar no topo do Everest, mas para mim era altamente insatisfatório. Por vezes sentia como se não estivesse de fato escalando a montanha - que esta­va fazendo aquilo por procuração. Embora tivesse aceitado, de bom grado, o papel de cliente para poder subir o Everest com Hall, nunca me acostumei com a idéia. Portanto fiquei felicíssimo quando, às 7hl0, ele chegou no topo da Balcony e me deu sinal verde para conti­nuar escalando.

Uma das primeiras pessoas que ultrapassei quando me pus em movimento de novo foi Lopsang, ajoelhado na neve sobre um monte de vômito. Normalmente, era sempre o integrante mais forte de qualquer grupo com quem estivesse escalando, mesmo que nunca utilizasse oxi­gênio suplementar. Como ele me disse, cheio de orgulho, após a expe­dição: "Toda montanha que eu subo, eu vou primeiro, eu fixo a corda. Em 95, com Rob Hall, eu fui primeiro, do acampamento-base até o topo, eu fixei cordas". Sua posição, quase no fim da fila do grupo de Fis­cher, na manhã de 10 de maio, pondo as tripas para fora, parecia indi­car que havia algo muito errado.

Na tarde anterior, Lopsang ultrapassara seus limites carregando um telefone via satélite para Pittman, além da carga que lhe competia levar, do acampamento 3 ao acampamento 4. Quando Beidleman viu Lopsang debaixo de um fardo de quarenta quilos, no acampamento 3, disse ao sherpa que não era necessário levar o telefone até o colo sul e sugeriu-lhe que o deixasse ali. "Eu não queria carregar telefone", Lopsang mais tarde admitiu, em parte porque funcionara muito mal no acampamento 3 e parecia ainda mais improvável que funcionasse no ambiente mais gela­do e difícil do acampamento 4. (32) "Mas Scott me mandou, disse: 'Se você não carrega, eu carrego'. Aí eu peguei telefone, amarrei na mochila, le­vei acampamento 4. [...] Me deixa muito cansado."

E agora Lopsang acabara de guinchar Sandy Pittman por cinco ou seis horas, agravando substancialmente sua exaustão e impedindo que assumisse o papel habitual na liderança, estabelecendo a rota. Como sua inesperada ausência à frente da fila teve certa influência nos acontecimentos daquele dia, sua decisão de repesar a corda para Sandy Pittman provocou críticas e surpresa após o fato. "Não faço idéia de por que Lopsang estava puxando Sandy", diz Beidleman. "Ele perdeu a noção do que deveria estar fazendo lá em cima, de quais eram as prio­ridades."

De sua parte, Sandy Pittman não pediu para ser puxada pela cor­da. Quando saiu do acampamento 4, na frente do grupo de Fischer, Lop­sang puxou-a de supetão para fora da fila e laçou-a com uma corda, pela frente da cadeirinha. Aí, sem consultá-la, atrelou a outra ponta à própria cadeirinha e começou a puxá-la. Sandy sustenta que foi puxada monta­nha acima contra a vontade.

O que deixa uma pergunta por responder: por que motivo aquela notória nova-iorquina prepotente (era tão infle­xível que alguns neozelandeses no acampamento-base apelidaram-na de "Sandy Pit Bull") simplesmente não soltou a corda que a atrelava a Lopsang, coisa que não teria requerido mais do que estender a mão e soltar o mosquetão?

Sandy explica que não se soltou do sherpa por respeito a sua auto­ridade — segundo suas palavras: "Eu não queria ferir os brios de Lop­sang". Ela também disse que, embora não tivesse consultado o relógio, sua lembrança é de que ele apenas a puxou pela corda por "uma ou uma hora e meia", (33) e não por cinco ou seis horas, como vários outros alpi­nistas disseram e Lopsang confirmou.

Da parte do sherpa, quando lhe perguntaram por que havia puxa­do Sandy Pittman, por quem inúmeras vezes expressara claro despre­zo, Lopsang deu respostas conflitantes. Disse ao advogado de Seattle, Peter Goldman - que escalara o Broad Peak com Scott e Lopsang, em 1995, e era um dos melhores amigos de Scott Fischer - que no escuro confundira Sandy Pittman com a cliente dinamarquesa Lene Gammel­gaard e que parou de puxá-la assim que percebeu o erro, com a luz do dia. Todavia, durante uma longa entrevista gravada comigo, Lopsang insistiu, de forma muito convincente, que sabia o tempo todo que esta­va puxando Sandy Pittman e que decidira fazê-lo "porque Scott quer todos os clientes no topo e eu penso, Sandy é a mais fraca, eu penso, ela vai devagar, por isso levo ela primeiro".

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