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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 80 / 128

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Jovem perspicaz, Lopsang era muito dedicado a Fischer; o sherpa compreendia o quão importante era para seu patrão e amigo levar Sandy Pittman até o topo. Na verdade, numa das últimas comunicações que Fischer teve com Jane Bromet, do acampamento-base, ele comen­tou: "Se eu conseguir levar Sandy Pittman ao topo, aposto que ela vai aparecer em todos os programas de entrevista da televisão. Será que ela vai me incluir nessa festa?".

Como explicou Goldman: "Lopsang era totalmente leal a Scott. Para mim é inconcebível que ele tivesse repesado a corda para alguém se não acreditasse, do fundo da alma, que era isso que Scott queria".

Fossem quais fossem seus motivos, a decisão de Lopsang de puxar um dos clientes não pareceu especialmente grave na época. Porém, aca­baria sendo uma entre várias outras coisinhas - um acúmulo lento, que cresceria de forma constante e imperceptível até uma situação crítica.

13. Crista sudeste

10 de maio de 1996

8400 m

Basta dizer que [o Everest] tem as cristas mais alcantiladas e os precipícios mais tenebrosos que já vi na vida e que toda aquela conversa sobre uma encosta de neve fácil é puro mito. [...]

Minha querida, isto tudo é eletrizante, impossível lhe dizer de que forma estou possuído pela idéia, quão grande é a expectati­va. E a beleza de tudo!

George Leigh Mallory,

em carta à sua mulher, 28 de junho de 1921

Acima do colo sul, no meio da zona da morte, a sobrevivência vem a ser, em grande medida, uma corrida contra o relógio. Ao sair do acam­pamento 4, no dia 10 de maio, cada cliente levava duas garrafas de oxi­gênio de três quilos e apanharia uma terceira no cume sul, de um esto­que deixado ali pelos sherpas. Num fluxo conservador, de dois litros por minuto, cada garrafa duraria entre cinco a seis horas. Por volta das 16h00 ou 17h00, o gás de todo mundo teria acabado. Dependendo da aclimatação e da constituição física individual, ainda seríamos capa­zes de funcionar acima do colo sul - porém não muito bem e não por muito tempo. A partir dali estaríamos vulneráveis a edemas cerebral e pulmonar, hipotermia, lentidão de raciocínio, queimaduras e necroses provocadas pelo frio. Os riscos de morrer aumentariam de maneira vertiginosa.

Hall, que já escalara o Everest quatro vezes, compreendia como ninguém a necessidade de subir e descer depressa. Reconhecendo que, em termos de habilidades básicas de alpinismo, alguns de seus clientes deixavam muito a desejar, a intenção de Hall era usar cordas fixas para nos manter em segurança e acelerar o nosso grupo e o de Fischer pelo terreno mais acidentado. Portanto, o fato de que nenhuma das expedi­ções tivesse ainda conseguido chegar ao topo, em 1996, era motivo de grande preocupação para ele, porque significava que não haveria cor­das instaladas em boa parte do caminho.

Göran Kropp, o solista sueco, chegara a 106 metros do topo, em 3 de maio, mas não se preocupara em fixar nenhuma corda. Os montene­grinos, que subiram ainda mais alto, haviam fixado cordas num trecho, mas a inexperiência os levara a usar toda a corda que tinham nos pri­meiros 426 metros acima do colo sul, desperdiçando o material em encostas suaves, onde não eram de fato necessárias. De modo que na manhã de nosso ataque ao cume, as únicas cordas fixadas nos íngremes serrilhados da parte superior da crista sudeste eram alguns restos de cordas esgarçadas que esporadicamente emergiam do gelo, deixadas ali por antigas expedições.

Antecipando essa possibilidade, antes de deixar o acampamento-base Hall e Fischer convocaram os guias das duas equipes e, durante a reunião, ficou resolvido que dois sherpas de cada expedição - inclu­sive os sirdars Ang Dorje e Lopsang - sairiam do acampamento 4 noventa minutos na frente dos grupos principais. Isso daria aos sherpas tempo de instalar cordas fixas nos trechos mais expostos da alta mon­tanha, antes que os clientes chegassem. "Rob deixou muito claro como isso era importante", lembra-se Beidleman. "Ele queria a todo custo evitar um engarrafamento desnecessário e o conseqüente desperdício de um tempo precioso."

Por algum motivo que não se conhece, entretanto, nenhum dos sherpas partiu do colo sul na nossa frente, na noite de 9 de maio. Talvez o violento vendaval, que não parou até as 19h30, os tenha

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