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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 81 / 128

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impedido de entrar em ação na hora em que pretendiam. Depois da expedição, Lop­sang insistiu que, no último minuto, Hall e Fischer simplesmente can­celaram os planos de fixar cordas antes da chegada dos clientes porque receberam informações erradas de que os montenegrinos já haviam completado a tarefa até o cume sul.

Mas, se a afirmação de Lopsang estiver correta, nenhum dos três guias que sobreviveram - Beidleman, Groom e Boukreev - ficou sabendo que houvera uma alteração nos planos. Além do mais, se o plano de fixar as cordas tivesse sido de fato abandonado, não haveria motivo para que Lopsang e Ang Dorje estivessem com os noventa metros de corda que cada um estava levando quando partiram do acampamento 4, à frente das respectivas equipes.

De todo modo, acima dos 8350 metros, nenhuma corda fora fixa­da de antemão. Quando Ang Dorje e eu chegamos à Balcony, às 5h30, estávamos mais de uma hora na frente dos demais integrantes do grupo. Naquele momento, poderíamos muito bem ter ido adiante e instalado as cordas. Rob, contudo, me proibira expressamente de ir na frente e Lopsang ainda estava bem abaixo, puxando Sandy Pittman, de modo que não havia ninguém para acompanhar Ang Dorje na tarefa.

Calado e sorumbático por natureza, Ang Dorje parecia especial­mente soturno quando nos sentamos juntos, vendo o sol nascer. Minhas tentativas de puxar conversa com ele não deram em nada. O mau humor, eu imaginava, devia-se a um abscesso no dente que vinha lhe causando dores nas duas últimas semanas. Ou talvez estivesse pensan­do na visão perturbadora que tivera quatro dias antes: na última noite no acampamento-base, ele e alguns outros sherpas celebraram o imi­nente ataque ao cume bebendo grandes quantidades de chhang - uma cerveja densa, doce, feita de arroz e painço. Na manhã seguinte, com uma ressaca tremenda, Ang Dorje estava agitado demais; antes de subir a cascata de gelo, segredou a um amigo que vira fantasmas à noite. Rapaz intensamente espiritual, Ang Dorje não era homem de levar tais agouros na brincadeira.

É possível, porém, que estivesse apenas bravo com Lopsang, a quem considerava um exibido de marca maior. Em 1995, Hall contra­tara os dois para sua expedição ao Everest e os sherpas não trabalharam bem juntos.

No dia do ataque ao cume, aquele ano, a equipe de Hall atingiu o cume sul tarde, por volta das 13h30, e encontrou um manto de neve ins­tável cobrindo o trecho final da crista do cume. Hall enviou um guia neozelandês, chamado Guy Cotter, na frente, com Lopsang, em vez de Ang Dorje, para saber se daria para prosseguir - e Ang Dorje, que era o sirdar da escalada, ofendeu-se. Um pouco mais tarde, quando Lop­sang já havia escalado a base do escalão Hillary, Hall decidiu abortar a tentativa de atingir o topo e fez sinal para Cotter e Lopsang voltarem. Lopsang, porém, ignorou o comando, desamarrou-se de Cotter e con­tinuou subindo sozinho. Hall ficara irritado com a insubordinação de Lopsang e Ang Dorje partilhara da contrariedade do patrão.

Esse ano, ainda que estivessem em equipes diferentes, Ang Dorje fora convocado mais uma vez a trabalhar com Lopsang no dia do ata­que ao cume - e Lopsang parecia estar de novo agindo como louco. Ang Dorje vinha trabalhando muito além do que lhe cabia há seis lon­gas semanas. Agora, aparentemente, estava cansado de fazer mais que sua cota. Com ar emburrado, sentou-se a meu lado na neve, à espera da chegada de Lopsang, e as cordas não foram fixadas.

Em conseqüência disso, topei com meu primeiro engarrafamento noventa minutos depois de ultrapassar a Balcony, a 8534 metros, quan­do as equipes, já todas misturadas, encontraram uma série de imensos degraus de rocha que precisavam de cordas para uma passagem segu­ra. Os clientes se amontoaram impacientes na base da rocha por quase uma hora, enquanto Beidleman - assumindo a tarefa do ausente Lop­sang - estendia a corda com dificuldade.

Nesse trecho, a impaciência e inexperiência técnica de um dos clientes de Hall, Yasuko Namba, quase provocou um desastre. Alta exe­cutiva do Federal Express, em Tóquio, Yasuko não se enquadrava no estereótipo da submissa e deferente mulher japonesa de meia-idade. Em casa, ela me contou com uma risada, seu marido fazia a comida e limpava tudo. Sua tentativa de subir o Everest tornara-se uma pequena cause célèbre no Japão. Até então, naquela expedição, fora uma alpi­nista lenta e insegura, porém agora, com o cume tão perto, estava mais energética do que nunca. "No momento em que chegamos ao colo sul", diz John Taske, que dividiu uma barraca com ela no acampamento 4, "Yasuko

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